Novos arranjos midiáticos?

São Paulo, 7 de setembro de 2013

São Paulo, 7 de setembro de 2013. Foto por: Mídia Ninja

A ascensão da Mídia Ninja com a escalada das manifestações de Julho tomou de assalto a pauta da Mídia no Brasil, entretanto, com uma maior reflexão vemos que esse movimento não era totalmente inesperado. Através de transmissões ao vivo e sem censura (o que também significa sem edição, o que resulta em um extenso material bruto) pessoas inicialmente ligadas ao coletivo Fora do Eixo denunciavam à todos que quisessem (e pudessem) seguir pela internet os abusos policiais e governamentais que ocorriam durante as passeatas. Mostrando a realidade crua de uma maneira igualmente crua a Mídia Ninja abria um precedente extremamente perigoso à grande mídia e ao patronato: a possibilidade de criação de narrativas alternativas que fugissem ao seu domínio e escancarassem o coronelismo brasileiro.

Esse também um dos motivos da ascensão em importância dos blogs e outras ferramentas via web que contribuem para a democratização das pautas que merecem atenção. A definição dos temas tratados pela mídia brasileira estiveram sempre ligados ao interesse do patronato local, esteja ele dentro do governo ou fora dele. Atualmente a mídia é responsável, por exemplo, pela radicalização e polarização do debate político, mostrando incessantemente uma mistura de reportagens sobre corrupção, escândalos relacionados à moral e ética, e críticas à administração pública em geral (principalmente sobre impostos) e praticamente acobertando a importância dos serviços públicos, transformando tudo que vem do Estado como algo por si só inferior e corrupto.

Entretanto, as Jornadas de Julho jogaram um pouco de luz onde antes só havia sombra, e a cobertura da grande mídia foi contradita dia após dia. Um grande número de notícias foi desmentida através da rápida movimentação via internet. Do caso do fotógrafo do jornal francês agredido por um PM (e que a Globo dizia ter sido ferido por um manifestante) ao caso dos policiais infiltrados que criavam tumultos para justificar a repressão policial as grandes redes de comunicação tiveram sua própria face corrupta registrada.

E foi assim, meio acuada, que as grandes corporações midiáticas participaram do programa Roda Viva, entrevistando dois personagens centrais para a criação da Mídia Ninja. Focando excessivamente na questão do financiamento, os entrevistadores tentaram apontar ligações suspeitas entre o governo e integrantes do Fora do Eixo. A grande mídia sabia que o financiamento não é a questão mais importante da Mídia Ninja, mas era a única arma que tinha até o momento, e teimou por usa-la durante todo o programa. E mesmo quando surgiram denuncias dos mandos e desmandos de Pablo Capilé (personagem central no Fora do Eixo) os meios de comunicação tradicionais continuam a focar a questão monetária (para ver apenas um dos muitos exemplos surgidos ultimamente, clique aqui).

O que a grande mídia finge não saber, é que o fator revolucionário da Mídia Ninja não se encontra no financiamento que  possibilita com que as transmissões sejam feitas. Diferentemente da mídia tradicional, a transmissão online via celular não requer grandes investimentos em infra-estrutura e pessoal, muito menos requer altos custos de manutenção. O medo da Mídia Ninja é que ela é democrática: com um celular e um laptop qualquer pessoa pode transmitir o que acha que deve. A pauta é dada por cada um, individualmente e sem censura, e é exatamente isso que a grande mídia não quer. O que André Forastieri (texto que dei de exemplo acima) finge não entender é que, muito pelo contrário do que ele afirma em sua coluna, a Mídia Ninja é sim independente do Fora do Eixo, e isso apenas evidencia que o financiamento não é NADA importante, pois qualquer um, de forma independente pode fazer sua própria transmissão (clique aqui para aprender).

Apesar da verborragia de Capilé, a Mídia Ninja, assim como as Jornadas de Julho, parece apontar rumo a uma nova direção. Como dito por Mauro Iasi:

“Nas ruas o desejo transborda, gritando a impossibilidade de manter a impossibilidade do real, grafitando de vida as paredes cinza da ordem moribunda. Devemos apostar na rebelião do desejo. Aqueles que se apegarem às velhas formas serão enterrados com elas.”

***

Bibliografia:
Mídia, rebeldia urbana e crise de representação – Venício A. de Lima, em Cidades Rebeldes – 2013

As Jornadas de Julho – Lincoln Secco, em Cidades Rebeldes – 2013

As vozes das ruas: as revoltas de junho e suas interpretações – Raquel Rolnik, em Cidades Rebeldes – 2013

Quando a cidade vai às ruas – Carlos Vainer, em Cidades Rebeldes – 2013

A rebelião, a cidade e a consciência – Mauro Luis Iasi, em Cidades Rebeldes – 2013

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s