‘Bobos’ franceses e terceirização no Brasil

Estavam três seguranças particulares a patrulhar o entorno de uma quadra, contando com pelo menos um veículo. A quadra pertence à Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), e naquela semana aconteciam jogos entre universidades. O que buscamos aqui, entretanto, é algo além da contradição entre o impedimento do acesso da Polícia Militar e a facilitação do acesso de uma milícia particular. O ponto chave aqui, pelo menos um deles, é justamente a normalidade com a qual a população trata o policiamento de um espaço público por uma polícia privada. Engana-se contudo quem acredita que esse movimento é apenas nacional.

A transformação globalizadora que teve como ponto crucial para seu desenvolvimento os anos 90 está agora a se consolidar socialmente, contando inclusive com uma reforma urbana própria, adiante da reestruturação econômica regional. Casos como os bohemians bourgeois (os “bobos“) franceses são a prova desse fenômeno. Uma elite jovem  ligada à produção tecnológica que provoca grandes transformações de elitização (fenômeno também conhecido como gentrificação), expulsando os moradores dos antigos bairros operários (que no cenário de desendustrialização não tem mais motivos de existir) para áreas cada vez mais periféricas. A recente crise imobiliária nos países europeus e nos EUA funcionou como catalizador dessa tendência, abrindo espaços  através da especulação imobiliária e com seus despejos. O caso de Barcelona é emblemático.

Levando em consideração que é exatamente o boom do processo tecnológico ocorrido nos anos 80/90 que leva a bolha da internet no início dos 2000, e que essa bolha tem como saída momentânea o afrouxamento da regulamentação bancária que leva à bolha de 2008, vemos que as bolhas estão intrínsicamente ligadas ao novo processo de acumulação. Esse novo processo de acumulação, que se radicalizou nos anos 90 está agora a consolidar a transformação das classes sociais, sendo essas, talvez, mais segregadas que no período anterior. O embate de forças, pelo menos por enquanto, aponta para uma consolidação dessa nova classe ligada à tecnologia. Em contrapartida, grande parte da população já está formando o que Ruy Braga chama de precarizado (trabalhadores do setor terciário com empregos de alta rotatividade, muitas vezes sem direitos trabalhistas, quando não tem eles negligenciados). O canal francês 5 Monde, denunciava essa semana, que na Alemanha, pessoas de 70 anos tinham que ter ‘subempregos’ recebendo 450 euros por mês para que conseguisse complementar a renda. Contraditóriamente, o mesmo programa mostrava como jovens ligados à tecnologia da informação ganhavam milhões de euros por ano.

No Brasil, um país de capitalismo periférico e de cultura escravagista, a segregação urbana sempre foi necessária para a manutenção das elites regionais. Mas os atuais movimentos de transformação urbana presentes na cidade de São Paulo mostram indícios daquela tendência global. Apesar da crise imobiliária não ter chegado aqui (pelo menos não em 2008 – desde 2011 muitos estudiosos já trataram da possibilidade dessa mesma crise em solo brasileiro) a expansão do mercado imobiliário tem expulsado mais agressivamente a população de baixa renda das áreas centrais de São Paulo.As atuações governamentais na Cracolândia e a lei federal 10.257 que autoriza as Operações Consorciadas em todas as cidades do Brasil são as ações estatais que dão combustível às transformações urbanas de elitização.

Sandro Mabel é o deputado responsável pela PL 4330, além de estar envolvido nas investigações contra Carlinhos Cachoeira e no chamado

Sandro Mabel é o deputado responsável pela PL 4330, além de ser réu nas investigações contra Carlinhos Cachoeira e no chamado “Golpe da Creche”

No mesmo sentido, corre na Câmara Federal o projeto de lei nº 4330 que permitiria a terceirização de todos os funcionários da empresa (atualmente, os funcionários ligados à atividade fim da empresa não podem ser tercerizados). Segundo estudo de 2011 realizado pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos) oito a cada dez acidentes de trabalho ocorrem com terceirizados. Também são apontados pelos dados que os terceirizados ganham 27% menos e trabalham até 3 horas a mais em sua jornada que os outros trabalhadores, além de serem demitidos até 2,6 anos mais cedo.

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Bibliografia:

Cidades Rebeldes – Vários autores

Occupy – Vários autores

O impasse da política urbana no Brasil – Ermínia Maricato

Segurança Privada – Viviane de Oliveira Cubas

Operação Urbana Consorciada – João Sette Witaker (disponível on-line aqui)

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Uma ideia sobre “‘Bobos’ franceses e terceirização no Brasil

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