1920 – 2020

“À semelhança da arte e da literatura, a ciência se conformou historicamente e (…) reflete o processo social a que deve sua própria existência. os cientistas herdam os preconceitos das sociedades nas quais vivem e trabalham”

Roberto Schwarz

O Hospício de Barbacena já foi tratado aqui nas páginas desse blog. Não por coincidência ele volta à tona na primeira postagem de 2014, com maior ímpeto. O choque após o contato com o ocorrido dentro daqueles muros é brutal. A leitura das histórias contadas por Daniela Arbex, em seu indescritível Holocausto Brasileiro, são como uma facada nas entranhas. É difícil compreender como uma mulher poderia ser trancafiada durante 40, 50 anos por exigir do pai o mesmo salário que ele pagava aos filhos. Nos causa estranhamento ver como médicos não titubeavam ao declarar pessoas tímidas como doentes mentais graves. E é quando essas questões começam a brotar que é necessário olhar com um pouco mais de afastamento.

Na segunda metade do século XIX, animados pelas descobertas científicas da época muitos cientistas tentaram buscar no comportamento humano uma correlação com o que se sistematizava em outras áreas, principalmente a Biologia. Nesse sentido seguiam os deterministas como Cesare Lombroso. Apesar da radicalidade do professor italiano na crença de que atributos genéticos determinariam comportamentos sociais, chegando inclusive a proclamar a figura do “criminoso nato” (indivíduo que seria, por imposição biológica, obrigatoriamente um criminoso), seu argumento se disseminou, chegando em fins do século aqui no Brasil.

Em solo brasileiro, o determinismo, apesar de relativamente tarde, conseguiu lugar de destaque, tanto no aparelho estatal do Estado Novo de Getúlio Vargas, quanto na sociedade recém saída do regime escravocrata. Muito mais que “ajudar a identificar e curar” os sujeitos (discurso adotado pelos médicos legalistas da época) a Medicina-Legal tornava a desigualdade uma questão biológica, hereditária. Como a política do corpo não poderia mais ser feita a fogo e brasa, como na época da escravidão e da monarquia, em seu lugar a “ciência” republicana provava que, biologicamente, alguns grupos seriam criminosos em potenciais. Trabalhadores urbanos, homossexuais e menores faziam parte desses grupos.

A ligação de comportamentos sociais como criminalidade à atributos hereditários não vingou (pelo menos institucionalmente) na época, e foi logo deixado de lado. Entretanto, na mentalidade escravocrata brasileira, as ideias deterministas deixaram um rastro visível até hoje. Como exemplo, temos os comentários feitos sobre a reportagem de um senhor de 84 anos preso várias vezes desde 1948 (leia aqui):

“Enquanto não aparece uma solução igual a do filme do Schwazeneger que tem implantada uma nova memória com nova personalidade, esses criminosos costumazes tem que cumprir toda a pena. Nada de progressão, são de personalidades doentias e repetiram (sic) os crimes sempre”

Enquanto na sociedade brasileira a mentalidade determinista encontra terreno fértil junto ao autoritarismo e ao preconceito, no campo da ciência alguns geneticistas tentam reivindicar o antigo dogma para si. Os GWAS, sigla em inglês para estudos de associação do genoma completo, tentam identificar pedaços de genes responsáveis por doenças complexas. As semelhanças entre o determinismo biológico e esses novos testes genéticos são claras. Assim como a Medicina Legal reclamava a falta de dados para poder chegar a conclusões, os geneticistas atuais também culpam a vastidão de variáveis para a dificuldade de verificação de suas hipóteses. Além disso, ambas as teorias deixam de levar em consideração fatores sociais na formação do ser humano, jogando na biologia e na genética toda a responsabilidade pelo futuro do indivíduo.

Roberto-Schwarz1

Roberto Schwarz percebeu a ligação entre ciência e política

A relação entre o determinismo dos anos 20 e o geneticismo atual pode ser melhor compreendida se nos utilizarmos da frase de Pankaj Mehta: “O atrativo do determinismo biológico está no fato de que oferece explicações científicas para dar conta das contradições civilizatórias engendradas pelo capitalismo”. É esse o motivo da volta de uma ideia tão anacrônica como essa.

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Bibliografia:

Feios, sujos e malvados sob medida – Luis Ferla

O ressurgimento do determinismo biológico na era liberal – Pankaj Mehta (artigo on-line aqui)

Holocausto Brasileiro – Daniela Arbex

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