A punição através da espera e sua relação com os deslocamentos urbanos

“Por favor, não me deixe permanecer / na sala de espera […] / Todos estão sempre tristes / porque eles não conseguem levantar / Ahhhhhh vamos lá e levante-se!” Fugazi

O preço da tarifa de ônibus em São Paulo foi o estopim de uma das maiores mobilizações sociais vistas nos últimos anos no Brasil. As famigeradas Jornadas de Junho tomaram de assalto as ruas de São Paulo, e na sequência, de várias outras cidades brasileiras, e foram violentamente reprimidas pela polícia, como de praxe ocorre com todo e qualquer movimento que coloque em risco o status quo de dominação que impera no país a séculos. A definição precisa do motivo da agitação em 2013 ainda permanece em debate. Na coletânea de textos feita pela editora Boitempo em conjunto com a Carta Maior (Cidades Rebeldes, 2013) a questão urbana como um todo é apontada como motivo da insatisfação. A própria coleção Tinta Vermelha (composta por três livros lançados à preço de impressão – 10 reais) pode ajudar a contextualizar as Jornadas. Outro livro da série, Occupy (2012), traz outros textos que comentam protestos similares ao brasileiro, do Occupy Wall Street ao Occupy Tahrir Square. Entretanto, não nos interessa aqui encontrar elementos que legitimem alguma teoria de sistema mundo, deixemos esse tema para outra postagem.

Talvez a simples questão tarifária, apesar do autor que escreve reconhecer a centralidade dos gastos com transporte para uma família menos abastada, tenha sido focada pela grande mídia como uma maneira de deslegitimar o movimento. Quase dois anos depois das manifestações, grande parte daqueles que participam das passeatas contra a presidência resmungam que “realmente, foi só pelos 20 centavos”. Mesmo na época das manifestações, muitos foram os que alertaram para a possibilidade que existia das Jornadas serem caracterizadas pela versão conservadora da história como “A revolta dos 20 centavos”. Da mesma maneira, o enfoque no aumento da tarifa como motivação última das manifestações também foi criticado quando, meses depois, o aumento ocorreu, e continuará a ocorrer, sendo assim, a mobilização teria sido, no mínimo, paliativa.

Tais argumentos poderiam muito bem servir para esconder a real motivação do que está por trás da revolta urbana. Paulo Arantes, em uma parte (chamada Zonas de Espera) do segundo capítulo de seu último livro (O Novo Tempo do Mundo, 2014) trata de uma temática que nos é familiar, mas que permanece relativamente estranhada. Na tentativa de estabelecer o que seria esse novo tempo do mundo, o filósofo chama a atenção para o “tempo morto”. O ato de esperar tornou-se uma forma de punição, já que “o aumento exponencial da velocidade de rotação do capital intensifica a exploração do trabalho, que por sua vez se fragmenta e dessocializa”, sendo assim (e citando o livro Globalização, de Zygmund Bauman) a mobilidade “tornou-se o fator de estratificação mais poderoso e mais cobiçado, a matéria de que são feitas e refeitas diariamente as novas hierarquias sociais, políticas, econômicas e culturais”. Em contraposição ao moderno tempo “congelado” do fordismo, as elites cinéticas atuais exercem sua dominação através da movimentação com maior velocidade. Sendo assim, a imobilização causada pela espera forçada (mais uma vez no livro Globalização) é punitiva pois estar proibido de mover-se é uma fonte inesgotável de dor, incapacidade e importância.

A relação entre espera e mobilidade se torna clara se analisada através da criação social que é o tecido urbano. E a questão aqui não se resume ao tipo de transporte, mas também tem relação íntima com ele. Quanto mais perto do topo da pirâmide social, mais rápidos e cômodos, exclusivos, são os meios de locomoção disponíveis, como o helicóptero. Na outra ponta, a base da mesma pirâmide não só enfrenta horas em pé dentro de um ônibus (muitas vezes lotado) para chegar em casa ou ao trabalho, como também termina, muitas vezes, seguindo a pé. Flávio Villaça, em seu livro Reflexões sobre as Cidades Brasileiras (2012), aponta uma forma de dominação específica praticada na cidade: a manipulação do tempo gasto nos deslocamentos espaciais feitos pelos habitantes da urbe. Para além do tipo de transporte, não seria coincidência, então, que condomínios fechados fiquem perto de grandes entroncamentos viários como autopistas, estradas ou avenidas. Muito menos é de se espantar que a malha metroviária de São Paulo não se estenda além dos bairros centrais.

A punição através da imobilização de grandes períodos de tempo nos deslocamentos diários ocorre não necessariamente de maneira premeditada, mas serve muito bem aos interesses daqueles que necessitam de mais velocidade e mais tempo para manter sua posição social dominadora.

Ilustrando o tempo de espera, um clássico da banda Fugazi: Sala de espera

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Bibliografia e referências

Cidades Rebeldes – Vários Autores

Ocuppy – Vários Autores

O Novo Tempo do Mundo – Paulo Arantes

Reflexões sobre as Cidades Brasileiras – Flávio Villaça

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