Existe neutralidade na rede?

Muito se fala em preservar a neutralidade na internet. Realmente, desde seu surgimento, não são poucos os que apontam para a capacidade multiplicadora da inventividade, da divulgação de conteúdo, da possibilidade ímpar de transpor mais e mais formas de trabalho executavas por humanos para as máquinas. Manuel Castells se encantará com o potencial integrador que a internet gera, criando redes de indignação e esperança. Quando pensamos em acontecimentos recentes não menos importantes como o movimento Ocuppy tomando de assalto praças mundo a fora, tais características parecem ainda mais uma realidade. Da mesma maneira, a profusão de material online parece ter ajudado a promover (ou pelo menos radicalizar) causas até pouco tempo sem muita visibilidade. Isso tudo sem contar o submundo da deep web, claro.

Local onde a maioria do material legalmente colocado na internet está “hospedado”, os EUA logo avançaram rumo à adequação legislativa do mundo virtual. Na época, dois projetos de lei ficaram famosos, o SOPA e o PIPA. Claro que tal medida pode ser vista na esteira de outras medidas de exceção como o Patriotic Act, em uma clara tentativa de estender os olhos do panóptico. Tal interpretação não é de toda equivocada. Entretanto, aqueles que vêem os desejos de controle do Leviatã não deveriam se assustar tanto com tentativas estatais de legislar sobre a internet, e o motivo pode parecer simples, mas também tem a ver com um dos maiores debates sobre a rede mundial de computadores.

A internet é capaz de formar espaço público? No Facebook, por exemplo, a criação de um perfil, ao menos que sejam feitas modificações nas configurações de privacidade do usuário, torna-o de livre acesso não só àqueles que fazem parte da rede, como também aparece até para aqueles que fazem pesquisas em sites de busca tipo Google. De alguma maneira, então, a internet estaria gerando espaço “público” virtual, no qual as pessoas poderiam se expressar e sofrer as consequências de tal ação. De maneira diferente do espaço público em contradição ao espaço privado da vida real, a internet mescla os dois campos, transformando a vida privada em espaço público virtual de discussão (e isso aplica-se não só quando postamos alguma opinião, como também quando marcamos que fomos à algum estabelecimento, ou quando postamos fotos). Entretanto, tal espaço “público” não somente pode ser gerenciado pelo usuário, que, por exemplo, configurando suas opções de privacidade na rede social pode fazer-se visível apenas para um restrito grupo de colegas, como também pode ser gerenciado pela própria empresa que administra tal espaço. No caso da rede social já citada, o Facebook, foi evidenciado recentemente que, através de um experimento, a empresa conseguiu manipular dados, fazendo com que as pessoas tivessem mais acesso à um tema escolhido pela empresa, em detrimento de vários outros, sendo possível assim manipular emoções de usuários.

A análise de sentimentos na web é uma área de pesquisa que congrega tanto a linguística e seus ramos, como também a computação e seus ramos. Buscando analisar informações em tempo hábil, o que para os padrões da internet seriam milhões de frases por minuto, desenvolvedores buscam aliar a capacidade contábil de uma máquina com a aptidão humana da interpretação. Nenhuma grande novidade no mundo da robótica. Contudo, a análise de sentimentos não somente está tentando otimizar a análise computacional de textos, como também está descobrindo como as emoções podem ser propagadas pela rede, como em uma pesquisa realizada na China, na qual foi averiguado que a raiva de propaga com mais intensidade que o prazer, em uma rede social chinesa estilo Twitter. O avanço na análise de dados é extraordinário. Atualmente, as máquinas são capazes de acertar com mais de 90% de precisão frases positivas, negativas, e etc… O grande desafio hoje seria a possibilidade de compreender computacionalmente a ironia e o sarcasmo, casos em que as máquinas acertam apenas pouco mais de 60% dos casos! Nesse sentido percebe-se que o poder de manipulação de opiniões na rede seria ineficiente se ocorresse através da censura, mas poderia ser muito bem utilizado com a mudança de alguns algorítimos de pesquisa e a evolução da análise textual realizada por computadores.

O grande perigo para a manipulação surgiria, portanto, pelas mãos daquele que também pode perigosamente acessar seus dados e vende-los, ou seja, das próprias redes sociais. Mas calma, a ideia aqui não é demonstrar como a iniciativa privada obstrui o Estado impondo seus próprios interesses. Isso porque o Estado age em parceria com tal iniciativa privada, em busca de controle e supervisão. Exemplo disso é não só a requisição sistemática de informações pelos governo às redes sociais, como também as parcerias firmadas entre governos e tais empresas para a prestação de serviços diversos no melhor estilo gerencialista pós virada de século. No caso brasileiro, o governo Roussef sentou-se à mesa com Zuckenberg poucas semanas atrás para discutir a implementação de conexões pelo país.

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