Podemos criticar Foucault?* – Parte 2**

*Tradução da entrevista de Daniel Zamora,  presente na matéria Can We Criticiza Foucault, do site Jacobin (para lê-la em inglês, clique aqui).

**Para que a postagem não fique muito extensa a entrevista será dividida em 2 partes.

Entrevistador: A questão do Estado é omnipresente no seu livro. Quem critica sua razão de existir (raison d’être) é supostamente um liberal. Mas isso não seria esquecer a tradição do anarquismo e do Marxismo, de Bakunin à Lenin? Você não estaria sobrepujando essa dimensão?

Entrevistado: Eu não creio. Eu acredito que a critica da tradição Marxista ou anarquista é muito diferente da qual Foucault estava formulando, e não apenas ele como um significativo campo do Marxismo dos anos 1970.

Primeiro, pela simples razão de que todos aqueles velhos escritores Marxistas e anarquistas não sabiam nada de seguridade social na forma que o Estado produziu após 1945. O Estado que Lenin estava criticando era efetivamente o Estado da classe dominante, no qual os trabalhadores não tinham nenhum papel real. O direito ao voto, por exemplo, não era generalizado – para homens – até o Entre Guerras (1919 – 1938). Então, é difícil saber o que eles pensariam dessas instituições e seus chamados “caracteres burgueses”.

Eu sempre me irritei com essa ideia, que é relativamente popular na esquerda radical, que a seguridade social é nada mais que uma ferramenta de controle social do grande capital. Essa ideia demonstra uma completa incompreensão da história e das origens dos nossos sistemas de proteção social. Esses sistemas não foram instituídos pela burguesia para controlar as massas. Pelo contrário, eles são totalmente hostis a ela!

Essas instituições foram o resultado de uma forte posição defendida pelo movimento trabalhista após a Liberação (francesa do julgo Nazista). Elas foram inventadas pelo próprio movimento trabalhista. A partir do século XIX, trabalhadores e sindicatos estabeleceram sociedades, como por exemplo, para pagar benefícios para aqueles que não podiam trabalhar. Foi a própria lógica  de mercado e os enormes riscos que ele impunha para a vida dos trabalhadores que os forçaram a desenvolver mecanismos de socialização parcial da renda.

Na fase inicial da revolução industrial, apenas proprietários eram cidadãos plenos, como o sociólogo Robert Castel enfatiza, foi apenas com a seguridade social que a “reabilitação social dos não proprietários” realmente tomou lugar. Foi a segurança social que estabeleceu, juntamente com a propriedade privada, uma propriedade social, que deliberadamente escoltou as classes populares até a cidadania. Essa é a ideia que Karl Polanyi descorre em A Grande Transformação, no qual vê no princípio da proteção social a meta de retirar o indivíduo das leis do mercado e assim reconfigurar as relações de poder entre o capital e o trabalho.

Pode-se, claro, lamentar pela forma estatista pela qual a seguridade social é gerida, ou dizer, por exemplo, que ela deve ser gerida por coletivos – mesmo que eu não compre essa ideia – mas criticar a ferramenta e sua base ideológica é totalmente diferente. Quando Foucault vai tão longe a ponto de dizer que “é claro que dificilmente existe algum sentido em falar sobre um ‘direito à riqueza'”, e perguntar, “deveria a sociedade procurar satisfazer necessidades ‘individuais’ de riqueza? E podem aqueles indivíduos legitimamente demandar a satisfação daquelas necessidades?” nós não estamos mais na esfera anarquista.

Para mim, e contrariamente a Foucault, o que nós deveríamos fazer é aprofundar os direitos sociais que já temos, nós deveríamos “construir onde já existe”, como Bernard Friot diz. E a seguridade social é uma excelente ferramenta que nós devemos ao mesmo tempo defender e aprofundar.

No mesmo sentido, quando eu leio a filosofa Beatriz Preciado, que escreve em Libération que “nós não iremos chorar pelo fim do Estado de Bem-Estar Social, porque o Estado de Bem-Estar Social é também o hospital psiquiátrico, o “disability office”, a prisão, a escola patriarcal-colonial-heteronormativa”, me faz pensar que o neoliberalismo fez muito mais do que transformar nossa economia; ele tem reconfigurado profundamente a imaginação social de uma certa esquerda “libertária”.

Entrevistador: Se você olhar para os poucos intelectuais críticos que contestam Foucault (Eu estou pensando em Mandosio, Debray, Bricmont, Michéa, Monville, ou Quiniou), você pode dizer, em termos amplos, que eles o criticam por posicionar-se mais “societário” do que “social” [i.e., mais sócio-cultural que sócio-econômico].

Mas focando no “marginal” (o excluído, o prisioneiro, o louco, o “anormal”, as minorias sexuais, e etc.), Foucault não tornou possível trazer a tona todas essas pessoas que foram até então sido ignoradas pelo Marxismo Ortodoxo – que foi capaz de enxergar apenas relações econômicas?

Entrevistado: Você está completamente certo. Eu direi isso novamente: Sua contribuição nesse ponto foi muito importante. Ele claramente removeu das sombras todo um espectro de opressões que eram invisíveis antes. Mas sua abordagem não apenas tentou colocar esses problemas a frente: ele procurou dar a esses problemas uma centralidade política que pode ser questionada.

Dizendo abertamente: a seus olhos, e aos olhos de muitos escritores desse período, a classe trabalhadora hoje é “emburguesada”, é perfeitamente integrada ao nosso sistema. Os “privilégios” que são obtidos no Pós-Guerra a transformam não mais em agente de mudança social, mas, pelo contrário, um freio à Revolução. Essa ideia era muito disseminada na época, pode ser vista em autores tão variados quando Herbert Marcuse ou André Gorz. Gorz iria tão longe a ponto de falar em “minoria privilegiada” comentando sobre a classe trabalhadora.

O fim dessa centralidade – que é também o sinônimo do fim da centralidade do trabalho – acharia sua válvula de escape na “luta contra a marginalização” de minorias étnicas ou sociais. O lumpenproletariado (ou os “novos plebeus” para usar o termo foucaultiano) adquire uma nova popularidade e é visto como um subjeto genuinamente revolucionário.

Para esses autores, o problema não é tanto a exploração, mas sim o poder, e formas modernas de dominação. Como Foucault escreveu, se  “no século XIX estava preocupado acima de tudo com relações entre as grandes estruturas econômicas e o aparato estatal”, agora é “o problema dos petits pouvoirs (pequenos poderes) e sistemas difusos de dominação” que “tem se tornado problemas fundamentais”.

O problema da exploração e da riqueza foi substituído pelo do “muito poder”, o poder de controlar a conduta pessoal, e formas de poder pastoral moderno. No alvorecer dos anos 1980, parece claro para Foucault que não é mais uma questão de redistribuição de riqueza. Ele não tinha problema em escrever: “Alguém poderia dizer que nós precisamos de uma economia que lide não com a produção e distribuição, mas uma economia que lide com as relações de poder”. Assim, é menos uma luta contra  poder “como explorador econômico”, e mais lutas contra o poder cotidiano, que toma forma especialmente no feminismo, no movimento estudantil, nas lutas prisionais, e aqueles não documentados.

Deixe-me ser claro, o problema obviamente não é ter colocado na agenda todo um espectro de dominações que tinham sido ignorados, o problema vem do fato de que essas dominações são mais e mais teorizadas e pensadas fora das questões da exploração. Longe de delinear uma perspectiva teórica que pense através das relações entre esses problemas, eles estão pouco a pouco colocados uns contra os outros, pensados até mesmo como contraditórios.

Entrevistador: Isso é precisamente o porque de algumas pessoas o criticarem: saudando a figura do “delinquente”, do criminoso, e o lumpen enquanto ridiculariza o trabalho e o trabalhador “conservadores”.

No seu livro, Jean-Loup Amselle desenha uma ligação entre esse abandono “do povo” e o posicionamento “écolo-bobo” da esquerda governamental, juntamente com frases de Terra Nova [um think tank neoliberal francês próximo ao Partido Socialista]. O que você pensa disso?

O problema com essa desconsideração com a classe trabalhadora teve efeitos surpreendentes. Tornou proeminente no debate público a “exclusão social” do desempregado, do imigrante, e da juventude dos “banlieues” [subúrbios em francês], como o principal problema político. Essa evolução terminou sendo o ponto de partida – para a direita e para a esquerda – para a centralidade do “excluído”, a ideia de que agora sociedades “pós-industriais” se dividirão entre aqueles que tem acesso ao mercado de trabalho e aqueles que, em um grau ou outro, estão excluídos dele – além de mudar o foco do mundo do trabalho para a exclusão, a pobreza, o desemprego.

Como os sociólogos Stéphane Beaud e Michel Pialoux notaram, essa mudança de foco teria indiretamente colocado os trabalhadores “do lado dos ‘ins’, aqueles que tem um emprego do lado dos ‘privilegiados’ e ‘vantagens não merecidas’.”

Essa lógica, que redefine a questão social em ambos os lados – tanto para a esquerda quanto para a direita – como um conflito entre duas facções do proletariado, antes de um entre o capital e o trabalho, é algo que deve ser examinado. Pela direita, a ideia é limitar os direitos sociais da “população excedente” (surnuméraires) mobilizando os “trabalhadores” (actifs) contra os excedentes, e pela esquerda, a ideia é mobilizar a “população excedente” contra o emburguesamento dos “trabalhadores”. Ambos os lados, então, aceitam a centralidade das facções “excluídas” da força de trabalho estável, às custas dos “trabalhadores”.

Desse modo, podemos nos perguntar se, quando Margareth Tatcher contrastou os “miseráveis” “protegidos” e “mimados” daqueles “que trabalhavam”, ela não estaria expressando a forma inversa da tese de Foucault ou André Gorz? Essa nova doxa da direita conservadora neoliberal busca essencialmente, como Serge Hamili nota, “a redefinição da questão social de tal maneira que a linha divisória não mais divide o rico dos pobres, o capital do trabalho, mas sim duas frações do ‘proletariado’: aquela que está sofrendo de ‘fadiga de compaixão’ daquela que representa a ‘nação de Bem-Estar Social”.

Obviamente o conteúdo político dessas declarações do setor direitista diferem radicalmente daquelas desses autores do final dos anos 1970, mas ambos pressupõe que hoje é o “excluído” a raiz do problema, ou a solução; É a população excedente que tornou-se o subjeto político central e não mais a classe trabalhadora.

Realmente, como não podemos nós ver um estranho paradoxo entre a “não-classe” [non-class] de Gorz e os “miseráveis” [underclass] que é tão querida pelo ideólogo ultra-conservador Charles Murray? Tanto para Gorz quanto para o movimento neoliberal, não é mais o fato de ser explorado a fonte do problema, tanto quanto a relação da pessoa com o trabalho. Gorz vê no modo de vida da população excedente como uma “denúncia” do trabalho, e Thatcher vê como um “vício” de preguiça que precisa ser combatido. Um eleva o “direito a ser preguiçoso” ao status de virtude, e outro torna isso uma injustiça que deve ser destruída.

Mas debaixo dessa camada, essas duas versões funcionam pela mesma lógica. De tal maneira, tanto a esquerda quanto a direita querem que a “população excedente” seja o problema, assim sendo, suplantando aquelas velhas, vencidas, ideias dogmáticas que colocam a exploração no coração da crítica social.

Tanto a esquerda quanto a direita querem colocar duas facções do proletariado uma contra a outra, e que, com a evolução econômica do neoliberalismo, tem entrado em uma competição destrutiva para ambas. Como a filosofa Marxista Isabelle Garo descreveu tão bem, essa mudança teria ajudado “a trocar a exploração e sua crítica pela centralidade da vítima à qual é negada justiça, ao prisioneiro, ao dissidente, ao homossexual, ao refugiado, e etc.”

Entrevistador: Debray escreve em Modernes Catacombes [Catacumbas Modernas em tradução livre] que Foucault, o rebelde e subversivo, tornou-se um “filósofo oficial”. Como você entende esse paradoxo? E como você explica como Foucault pode seduzir tantos desses grupos radicais que, entretanto, afirmam com convicção que querem colocar um fim à Era neoliberal?

Entrevistado: É uma questão muito interessante, mas uma a qual eu não tenho uma resposta satisfatória. Iria sugerir, contudo, que é em grande parte à estrutura do campo acadêmico. Você teria que voltar a Bourdieu e aos preciosos trabalhos de Louis Pinto para entender melhor essa evolução.

Não deve nunca ser esquecido que aderir a uma “escola”, ou associar-se a uma certa perspectiva teórica, significa associar-se à um campo intelectual, onde há uma importante luta por acesso às posições dominantes. Em ultima instância, chamar alguém de marxista na França dos anos 1960 – quando o campo acadêmico era em parte dominado pelos auto-identificados marxistas, não tem o mesmo significado que ser um marxista hoje.

Conceitos e autores canônicos são obviamente instrumentos intelectuais, mas eles também correspondem à diversas estratégicas para tornar-se parte do campo e das lutas sobre ele. Desenvolvimentos intelectuais são então determinados em parte por relações de poder dentro do próprio campo.

Além disso, parece para mim que as relações de poder dentro do campo acadêmico tem mudado consideravelmente desde o final dos anos 1970: depois do declínio do marxismo, Foucault ocupou um lugar central. Na realidade, ele oferece uma posição confortável que permite que um certo grau de subversão seja introduzido sem que se infrinja os códigos da academia. Utilizar Foucault é relativamente valorizado, muitas vezes isso permite que seus defensores sejam publicados em jornais prestigiados, entrem em amplas redes intelectuais, publique livros, etc.

Vastos campos do mundo intelectual referem-se a Foucault em seu trabalho e tem ele falando sobre tudo – e seu contrário. Você pode ser consultor do MEDEF e editar suas aulas! [Uma referência a François Ewald, consultor da principal federação francesa de comércio; veja acima.] Eu diria que ele abre portas. Você não pode dizer o mesmo sobre Marx atualmente.

Entrevistador: Essa crítica das “margens” como centro do combate político poderia acabar agradando todo o tipo de contra-revolucionários na França ou na Bélgica. Você não está com medo de fazer o jogo deles?

Entrevistado: Eu creio que exista uma crítica “conservadora” de Foucault – e mais genéricamnte o que representou maio de 1968 na história social francesa. Essa crítica não é de maneira alguma marginal: você pode acha-la na crítica da direita conservadora como Eric Zemmour ou no National Front. Eles abertamente criticam todo o feminismo, o anti-racismo e o legado cultural de maio de 1968 enquanto tem muito menos a dizer sobre a pilhagem econômica neoliberal. É como se o problema fosse o liberalismo político que veio nos anos 1980, e apenas regredindo dessas evoluções societais que estaremos habilitados a “faire société“.

Podemos ouvir esse tipo de pensamento, de acordo com o qual foi a destruição de valores familiares ou formas comunitárias dos laços sociais que permitiram a expansão do neoliberalismo. Pode existir um grão de verdade nesse análise, mas eles estão totalmente delirantes quando propõe uma volta a esses estilos de vida mais “tradicionais”. Nós estamos indo rumo a um tipo de liberalismo muito mais autoritário, com um retorno aos valores familiares, um retorno a total fantasia da cultura nacional, e ao bom e velho capitalismo pré-globalizado…

Quanto à ideia de “fazer o jogo deles”, eu não vejo isso como um problema. Se existe um problema com certos aspectos do legado de maio de 1968, o papel da esquerda não é fechar os olhos porque a extrema direita está dizendo isso, mas, ao contrário, apresentar seu próprio julgamento, formular sua própria crítica, para que não perca totalmente a batalha ideológica. Essa é a tarefa que devemos começar se quisermos reconstruir a esquerda que é tanto radical quanto popular.

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5 ideias sobre “Podemos criticar Foucault?* – Parte 2**

  1. Pingback: Podemos criticar Foucault?* – Parte 1** | Bfocal

      1. LavraPalavra

        Bom saber, Guilherme! Então deixaremos de fazê-la, para evitar o trabalho repetitivo e a perda da exclusividade! Nos informe quando estiver publicada, para que possamos difundir! Saudações.

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