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Textos escritos pelo idealizador do blog.

Não! – Resposta à repercussão da entrevista “Podemos criticar Foucault?”

entrevista de Daniel Zamora ao site Ballast, chamada “Podemos criticar Foucault?”, causou agitação desde seu lançamento em dezembro de 2014. Logo seguiriam textos de diversas partes do mundo críticos à Zamora. Não foi diferente com a publicação do mesmo texto traduzido e publicado pelo blog semanas atrás. Comentários indignados pareciam responder à pergunta título da entrevista: aparentemente criticar Foucault é um ato de heresia. Talvez parte da confusão causada no público brasileiro tenha sido ocasionada pelo fato da primeira página do facebook que divulgou o texto, chamada “Foucault and Neoliberalism” – Foucault e o Neoliberalismo – fazer impulsionamento de publicações de forma paga, dando a impressão que existiriam interesses corporativos ou conservadores por trás da análise. Quanto à página, creio que ela foi feita pelo próprio Zamora, na tentativa de viabilizar ainda mais a polêmica em torno de seu trabalho, a própria página nos dá vários indícios disso. Mas, tratando do que realmente interessa, creio que é necessário fazer uma análise tentando compreender de onde partiu a crítica a Foucault, e para onde ela vai.

Um primeiro argumento levantado por Zamora em resposta à crítica feita por Stuart Elden é a base de documentos que levará à essa conclusão. Em seu artigo Critiquer Foucault Zamora utiliza-se principalmente de entrevistas, textos e intervenções de Foucault que irão de 1972 à 1983, de modo que as aulas no Collège de France não encontram-se majoritariamente entre as referências. Dentre as 45 notas referenciais ao trabalho foucaultiano, 20% vem das aulas no Collège de France, sendo as outras 80% de outros meios. Esse arranjo talvez se dê pelo fato comentado pelo próprio Elden, que irá dizer que muitas vezes a maneira como Foucault lê os textos faz parecer com que ele esteja concordando com aquilo, quando na verdade está apenas tentando reconstruir o argumento para melhor entende-lo. Zamora defende que no caso das aulas, isso faz sentido mesmo que as considere dúbias, mas em outros momentos, quando entrevistadores explicitam frases como “em sua opinião…”, “você acredita que…”, “do seu ponto de vista…”, “você defende a meta que acabei de dizer?”, Foucault está evidentemente falando eu seu próprio nome.

Mas a principal polêmica não se dá pela escolha bibliográfica. Como afirmado por Zamora em outro artigo no qual o blog tem trabalhado na tradução:

Foucault não advoga pelo neoliberalismo, mas ele adota todas as suas críticas ao Estado de Bem Estar Social.”

Aqui encontra-se a verdadeira chave para compreender a crítica de Zamora. O motivo para essa crítica ferrenha ao Estado de Bem Estar Social pode ter surgido por vários motivos. O enfoque reconhecido de Foucault pela questão estatal pode ser um. Como comentado por Roberto Machado na introdução de Microfísica do Poder:

“Uma coisa não se pode negar às análises genealógicas do poder: elas produziram um importante deslocamento com relação à ciência política, que limita ao Estado [grifo meu] o fundamental de sua investigação sobre o poder.” Página 13.

Ora, essa limitação é proposital para compreender os mecanismos biopolíticos, que agem sobretudo pela mão e ação do Estado. Entretanto, essa limitação pode levar à uma compreensão “exclusivista”. O texto-resposta à Zamora escrito por Gordon Hull parece partilhar dessa compreensão quando, ao tratar do movimento de expansão neoliberal, o autor comenta única e exclusivamente a intervenção estatal, sem contextualiza-la com os anseios da iniciativa privada e dos setores conservadores que caminham em conjunto. É claro que a mudança comentada por Hull na medicina, a transformação de uma medicina comunitária a lá Estado de Bem Estar Social para uma medicina individualizada, é realizada obviamente pela intervenção estatal, mas a quem ela realmente interessa? Única e exclusivamente ao Estado que visa ampliar seus mecanismos biopolíticos?

A crítica de Foucault ao Estado de Bem Estar Social, acabará por tornar turvo o horizonte de expectativa da esquerda. O Estado Providência, conciliação de classes que se deu sobretudo na Europa do Pós Segunda Guerra, foi ao mesmo tempo uma expansão provisória dos direitos dos trabalhadores e um freio aos impulsos realmente libertários da classe. Keynes, teórico que forneceu a base econômica para o Welfere State, defendia o pleno emprego no capitalismo através de uma forte intervenção do Estado na economia. O êxito de tal visão nos Estados Unidos do New Deal nos anos 1930, alastraria para a Europa do Plano Marshall tal idéia e em 1960 Walt Rostow declararia triunfante [em um livro que foi lançado no Brasil em 1964 com um nome revelador: Etapas do desenvolvimento econômico: Um manifesto anti-comunista] que:

“[…] as políticas lentas e tímidas das décadas de 1920 e 1930 já não podem mais ser toleradas nas sociedades ocidentais. E agora já se conhecem amplamente os truques técnicos dessas políticas – devidos à revolução keynesiana.”

Mesmo que Walt Rostow fosse um dos mais fervorosos defensores do capitalismo, ou seja, o tom triunfalista já é esperado, não deixa de chamar a atenção essa impressão de “desafio vencido”. A introdução do Estado de Bem Estar Social e sua política econômica ajudou a transformar também as dinâmicas entre as classes sociais, incluindo o trabalhador num circuíto formal de benefícios, mas, entretanto, continuando a excluir aqueles que não se adaptam ao mundo do trabalho, os excluídos. É aqui que a mudança do tema da exploração para o tema de exclusão tem seu início, enfocando aqueles à margem da força de trabalho, e não mais a força de trabalho em si. Segundo Zamora, essas mudanças de foco são duas grandes contribuições do Neoliberalismo.  Claro que, como comentado por Zamora na primeira pergunta da entrevista, Foucault deve ser lembrando também como alguém que enfocou temas que eram ignorados pela esquerda da época, trazendo importantes contribuições para pensarmos as opressões, entretanto existem outras facetas, outros posicionamentos que podem sim, e devem, ser motivo de crítica.

Voltando à questão da saúde, por exemplo, como apontado por Zamora, Foucault chega a questionar o próprio direito à saúde, dizendo que como as necessidades em termos de saúde não são nem quantificáveis nem limitadas “não é possível fixar objetivamente um campo teórico ou prático, válido para todos, no qual as necessidades de saúde sejam total e definitivamente satisfeitas”. Ou seja, “[é] claro que dificilmente fará sentido falar em ‘direito à saúde'”, ele questiona portanto se “deveria uma sociedade buscar por meios coletivistas a necessidade de saúde de indivíduos? E podem indivíduos legitimamente demandar a satisfação dessas necessidades?” e conclui que ” uma resposta positiva à essa questão não teria uma aceitável, ou até imaginável, realização prática”. Zamora aponta a similaridade com os argumentos usados por Hayek quando ele propõe a comercialização das necessidades de saúde, onde caberia ao indivíduo escolher ou não ter acesso aos serviços necessários. Na sequencia dessa mesma entrevista Foucault afirma não estar fazendo apologia à um livre mercado selvagem, entretanto, a própria crítica à noção de “direitos”, a crítica à dependência que o Estado de Bem Estar Social causaria ao trabalhador, e crítica à noção, também defendida por Friedman, de que os pobres acabariam pagando pela saúde dos ricos, acabam por incorporar no corpus social-democrata a linguagem neoliberal.

Um exemplo claro dessa incorporação pode ser visto com facilidade no livro Renda da Cidadania, escrito pelo ex-senador petista Eduardo Suplicy, um notório social-democrata brasileiro, que buscará inspiração em um vasto leque – de Marx a Hayek (?!) – para defender a existência de uma renda mínima para todo cidadão.

Aproveitando o gancho da Renda Mínima e voltando à questão da passagem do Estado Providência para o Estado Neoliberalista, existe também um ponto chave quando Zamora trata a questão de Stoléru na entrevista: a própria defesa de um Imposto de Renda Negativo. Voltando um pouco atrás no texto foi comentado que o Estado de Bem Estar Social baseia-se na teoria keynesiana do pleno emprego, dispondo para alcançar tal objetivo da máquina estatal. Em contraposição à essa proposta os economistas neoliberais dirão que, se o mercado não consegue absorver toda a mão de obra disponível, então o Estado não deveria intervir para que essa mão de obra seja absorvida, entretanto, também não deveria deixar as pessoas à míngua, ou seja, o Estado deveria distribuir uma renda mínima para aqueles excluídos pelo mercado de trabalho. Podemos ver então que a mudança de um horizonte de expectativa já rebaixado que era a inserção em um circuito formal de trabalho sem o fim da opressão, torna-se com o neoliberalismo ainda mais rebaixado, quando a expectativa futura não é nem de um emprego, mas sim de, se dermos sorte, uma renda mínima que não mate a pessoa de fome! É importante para a autoproclamada esquerda entender essa mudança drástica e que terá implicações muito extensas, como a própria ideia de Políticas Públicas, que deve urgentemente ser abandonada – mas esse é um tema para futura postagem.

Por fim, Thomas Nail, em sua crítica à Zamora, nos parece mais sóbrio ao dizer que ninguém está afirmando que Foucault era neoliberal, apenas que eles tinha certa simpatia pela teoria neoliberal, em quesitos como o anti-estatismo, o anti-autoritarismo e etc. Entretanto, ele vai além, ao chamar Foucault de um aceleracionista, via política descrita pelo próprio Nail como a crença de que o melhor meio para combater o capitalismo é acelerando o que o autor considera as “tendências internas” do próprio capitalismo, como a descentralização, o anti-estatismo, a experimentação e a inovação constante. Essa visão seria diferente tanto da resignação – a crença de um apocalipse capitalista -, quando da dialética – que acredita que as próprias contradições capitalistas levariam ao comunismo. Desnecessário falar o quão idealizada são as considerações sobre quais são essas “tendências” capitalistas. Mesmo que não o taxe de aceleracionista o autor vai mostrar que Foucault teve contato com a teoria, tendo, inclusive, feito a introdução do livro aceleracionista de Deleuze e Guattari, O Anti-Édipo, em 1972. Tal artigo, longe de ser uma crítica à Zamora, na minha opinião acaba por reforçar sua teoria, mesmo que tratando tal questão de uma maneira positiva como Nail fez.

Então, longe de ser apenas pura propaganda conservadora como foi alardeado nos últimos dias, a critica à Foucault parece apontar para uma esquerda mais radical – e aqui o fato Zamora aparentemente defender o Estado de Bem Estar Social como uma possibilidade de avanço real rumo ao socialismo, tese que não concordo mesmo que reconheça a importância de instrumentos pioneiros das associações trabalhistas do início do século XX que serão futuramente incorporados pelo Estado décadas depois, não modifica a validade de sua crítica – e melhor formada para entender com mais precisão como o neoliberalismo age.

Meia noite dentro da boca

Sei que nada será como está / Amanhã ou depois de amanhã / Resistindo na boca da noite um gosto de sol

Das conclusões das últimas postagens, nas quais traçamos ligações entre a introdução do modelo de produção toyotista, o Estado gerencialista, a mudança no horizonte de expectativa social-democrata, a introdução da ideia de políticas públicas, entre outros, devemos trazer elementos para compreender a longa madrugada brasileira, que se arrastaria como prenúncio da agonia social -implementada futuramente em escala mundial pelo neoliberalismo – vigente no Brasil a pelo menos 51 anos.

Como bem apontado por Paulo Arantes no capítulo 1964 de seu livro O novo tempo do mundo, talvez os gestores da Exceção que se inaugurou no Brasil com o golpe de 64, não tivessem ideia da mudança que começariam a operar na sociedade brasileira. Ou talvez tivessem, isso menos importa. A questão é que a exceção brasileira originária de 64 transmutou-se na chacina em plena luz do dia que é a chamada Terceira República, não sem o espanto de observadores internos ou externos. Noves fora, a Política de Desarmamento realizada pelos governos petistas é a contradição inerente à esse Estado gerencialista que a social-democracia mundial tanto afaga. A política pública de controle ao acesso da população à armas, tão propagandeada pelo governo como salvadora de vidas (160 mil segundo um relatório), se contradiz, e muito, com a política de incentivo à industria armamentista nacional, realizada pelo mesmo governo. Para verificação, em 2010 o Brasil era o 4º maior exportador de armas leves, e o 14º de armas pesadas. Não seria demais lembrar também que a fabricante IMBEL está produzindo um novo fuzil, com tecnologia totalmente desenvolvida no Brasil, chamado IA 2, que já conta com unidades nas Forças Armadas brasileiras e na Polícia Militar do Estado de São Paulo, ou seja, dentro de pouco também podemos espera-los pelas ruas brasileiras, na mão de traficantes e assaltantes de caixas eletrônicos – sempre lembrando que esse tipo de armamento corresponde a pouco mais de 15% das armas na mão do dito crime organizado. De qualquer maneira, a contradição do caráter focal das políticas públicas é evidente, num cobertor pequeno que é o do Estado Gerencialista, cobre-se a cabeça para deixar os pés no sereno. Pior ainda, a conciliação de classes neodesenvolvimentista adotada pelo PT, tentando ao mesmo tempo atender demandas populares como a diminuição da violência, acaba por atender interesses das grandes industrias. E isso não é pouca coisa. A injeção de dinheiro público na industria armamentista acabou obviamente por aumentar a capilaridade da bancada da bala, aumentando o poder de lobby das empresas no senado, na câmara, e inclusive, na sociedade. Não por coincidência Sandro Mabel, que já mereceu uma menção em texto anterior por ser autor do PL das terceirizações, é também da bancada da bala.

E é aqui que o parafuso dá mais uma volta, rememorando a iniciação da exceção brasileira chamada Ditadura Civil Militar. De tal maneira que o Direito Penal do Inimigo, comentado com precisão na coletânea O que resta da Ditadura, somado à esse grande embate entre os “de dentro” e os “de fora”, ou os incluídos e os excluídos, ou qualquer denominação que valha, acaba por criar um Estado Emergencial onde a carnificina é ampliada, em comparação ao período original de exceção, ceifando, por baixo, 60 mil vidas por ano.

As políticas públicas voltadas às grandes empresas armamentistas são também emblemáticas do lugar ocupado pelo Brasil no cenário externo em 2015. Se em governos anteriores o comprador óbvio de nossas armas era os Estados Unidos – e digo óbvio pois era o nosso maior “parceiro” comercial em todos os quesitos -, após os anos 2000 passamos a internacionalizar ainda mais nossas vendas. Assim como foram para a África e Ásia a Odebrecht, a JBS, a Gerdau, também foram nossas indústrias armamentistas, em especial a Taurus. Em 2011 foram grandes compradores de armas brasileiras: Estados Unidos, Colômbia, Tunísia, Israel, Paquistão, Filipinas, para citar os países com maiores problemas de violência. Tal política governamental de fomento à industria armamentista brasileira só reforça o papel sub-imperialista realizado pelo Brasil atualmente, que, em outro exemplo, ocupa militarmente o Haiti – em nome da ONU, claro – a 11 anos.

Podemos criticar Foucault?* – Parte 2**

*Tradução da entrevista de Daniel Zamora,  presente na matéria Can We Criticiza Foucault, do site Jacobin (para lê-la em inglês, clique aqui).

**Para que a postagem não fique muito extensa a entrevista será dividida em 2 partes.

Entrevistador: A questão do Estado é omnipresente no seu livro. Quem critica sua razão de existir (raison d’être) é supostamente um liberal. Mas isso não seria esquecer a tradição do anarquismo e do Marxismo, de Bakunin à Lenin? Você não estaria sobrepujando essa dimensão?

Entrevistado: Eu não creio. Eu acredito que a critica da tradição Marxista ou anarquista é muito diferente da qual Foucault estava formulando, e não apenas ele como um significativo campo do Marxismo dos anos 1970.

Primeiro, pela simples razão de que todos aqueles velhos escritores Marxistas e anarquistas não sabiam nada de seguridade social na forma que o Estado produziu após 1945. O Estado que Lenin estava criticando era efetivamente o Estado da classe dominante, no qual os trabalhadores não tinham nenhum papel real. O direito ao voto, por exemplo, não era generalizado – para homens – até o Entre Guerras (1919 – 1938). Então, é difícil saber o que eles pensariam dessas instituições e seus chamados “caracteres burgueses”.

Eu sempre me irritei com essa ideia, que é relativamente popular na esquerda radical, que a seguridade social é nada mais que uma ferramenta de controle social do grande capital. Essa ideia demonstra uma completa incompreensão da história e das origens dos nossos sistemas de proteção social. Esses sistemas não foram instituídos pela burguesia para controlar as massas. Pelo contrário, eles são totalmente hostis a ela!

Essas instituições foram o resultado de uma forte posição defendida pelo movimento trabalhista após a Liberação (francesa do julgo Nazista). Elas foram inventadas pelo próprio movimento trabalhista. A partir do século XIX, trabalhadores e sindicatos estabeleceram sociedades, como por exemplo, para pagar benefícios para aqueles que não podiam trabalhar. Foi a própria lógica  de mercado e os enormes riscos que ele impunha para a vida dos trabalhadores que os forçaram a desenvolver mecanismos de socialização parcial da renda.

Na fase inicial da revolução industrial, apenas proprietários eram cidadãos plenos, como o sociólogo Robert Castel enfatiza, foi apenas com a seguridade social que a “reabilitação social dos não proprietários” realmente tomou lugar. Foi a segurança social que estabeleceu, juntamente com a propriedade privada, uma propriedade social, que deliberadamente escoltou as classes populares até a cidadania. Essa é a ideia que Karl Polanyi descorre em A Grande Transformação, no qual vê no princípio da proteção social a meta de retirar o indivíduo das leis do mercado e assim reconfigurar as relações de poder entre o capital e o trabalho.

Pode-se, claro, lamentar pela forma estatista pela qual a seguridade social é gerida, ou dizer, por exemplo, que ela deve ser gerida por coletivos – mesmo que eu não compre essa ideia – mas criticar a ferramenta e sua base ideológica é totalmente diferente. Quando Foucault vai tão longe a ponto de dizer que “é claro que dificilmente existe algum sentido em falar sobre um ‘direito à riqueza'”, e perguntar, “deveria a sociedade procurar satisfazer necessidades ‘individuais’ de riqueza? E podem aqueles indivíduos legitimamente demandar a satisfação daquelas necessidades?” nós não estamos mais na esfera anarquista.

Para mim, e contrariamente a Foucault, o que nós deveríamos fazer é aprofundar os direitos sociais que já temos, nós deveríamos “construir onde já existe”, como Bernard Friot diz. E a seguridade social é uma excelente ferramenta que nós devemos ao mesmo tempo defender e aprofundar.

No mesmo sentido, quando eu leio a filosofa Beatriz Preciado, que escreve em Libération que “nós não iremos chorar pelo fim do Estado de Bem-Estar Social, porque o Estado de Bem-Estar Social é também o hospital psiquiátrico, o “disability office”, a prisão, a escola patriarcal-colonial-heteronormativa”, me faz pensar que o neoliberalismo fez muito mais do que transformar nossa economia; ele tem reconfigurado profundamente a imaginação social de uma certa esquerda “libertária”.

Entrevistador: Se você olhar para os poucos intelectuais críticos que contestam Foucault (Eu estou pensando em Mandosio, Debray, Bricmont, Michéa, Monville, ou Quiniou), você pode dizer, em termos amplos, que eles o criticam por posicionar-se mais “societário” do que “social” [i.e., mais sócio-cultural que sócio-econômico].

Mas focando no “marginal” (o excluído, o prisioneiro, o louco, o “anormal”, as minorias sexuais, e etc.), Foucault não tornou possível trazer a tona todas essas pessoas que foram até então sido ignoradas pelo Marxismo Ortodoxo – que foi capaz de enxergar apenas relações econômicas?

Entrevistado: Você está completamente certo. Eu direi isso novamente: Sua contribuição nesse ponto foi muito importante. Ele claramente removeu das sombras todo um espectro de opressões que eram invisíveis antes. Mas sua abordagem não apenas tentou colocar esses problemas a frente: ele procurou dar a esses problemas uma centralidade política que pode ser questionada.

Dizendo abertamente: a seus olhos, e aos olhos de muitos escritores desse período, a classe trabalhadora hoje é “emburguesada”, é perfeitamente integrada ao nosso sistema. Os “privilégios” que são obtidos no Pós-Guerra a transformam não mais em agente de mudança social, mas, pelo contrário, um freio à Revolução. Essa ideia era muito disseminada na época, pode ser vista em autores tão variados quando Herbert Marcuse ou André Gorz. Gorz iria tão longe a ponto de falar em “minoria privilegiada” comentando sobre a classe trabalhadora.

O fim dessa centralidade – que é também o sinônimo do fim da centralidade do trabalho – acharia sua válvula de escape na “luta contra a marginalização” de minorias étnicas ou sociais. O lumpenproletariado (ou os “novos plebeus” para usar o termo foucaultiano) adquire uma nova popularidade e é visto como um subjeto genuinamente revolucionário.

Para esses autores, o problema não é tanto a exploração, mas sim o poder, e formas modernas de dominação. Como Foucault escreveu, se  “no século XIX estava preocupado acima de tudo com relações entre as grandes estruturas econômicas e o aparato estatal”, agora é “o problema dos petits pouvoirs (pequenos poderes) e sistemas difusos de dominação” que “tem se tornado problemas fundamentais”.

O problema da exploração e da riqueza foi substituído pelo do “muito poder”, o poder de controlar a conduta pessoal, e formas de poder pastoral moderno. No alvorecer dos anos 1980, parece claro para Foucault que não é mais uma questão de redistribuição de riqueza. Ele não tinha problema em escrever: “Alguém poderia dizer que nós precisamos de uma economia que lide não com a produção e distribuição, mas uma economia que lide com as relações de poder”. Assim, é menos uma luta contra  poder “como explorador econômico”, e mais lutas contra o poder cotidiano, que toma forma especialmente no feminismo, no movimento estudantil, nas lutas prisionais, e aqueles não documentados.

Deixe-me ser claro, o problema obviamente não é ter colocado na agenda todo um espectro de dominações que tinham sido ignorados, o problema vem do fato de que essas dominações são mais e mais teorizadas e pensadas fora das questões da exploração. Longe de delinear uma perspectiva teórica que pense através das relações entre esses problemas, eles estão pouco a pouco colocados uns contra os outros, pensados até mesmo como contraditórios.

Entrevistador: Isso é precisamente o porque de algumas pessoas o criticarem: saudando a figura do “delinquente”, do criminoso, e o lumpen enquanto ridiculariza o trabalho e o trabalhador “conservadores”.

No seu livro, Jean-Loup Amselle desenha uma ligação entre esse abandono “do povo” e o posicionamento “écolo-bobo” da esquerda governamental, juntamente com frases de Terra Nova [um think tank neoliberal francês próximo ao Partido Socialista]. O que você pensa disso?

O problema com essa desconsideração com a classe trabalhadora teve efeitos surpreendentes. Tornou proeminente no debate público a “exclusão social” do desempregado, do imigrante, e da juventude dos “banlieues” [subúrbios em francês], como o principal problema político. Essa evolução terminou sendo o ponto de partida – para a direita e para a esquerda – para a centralidade do “excluído”, a ideia de que agora sociedades “pós-industriais” se dividirão entre aqueles que tem acesso ao mercado de trabalho e aqueles que, em um grau ou outro, estão excluídos dele – além de mudar o foco do mundo do trabalho para a exclusão, a pobreza, o desemprego.

Como os sociólogos Stéphane Beaud e Michel Pialoux notaram, essa mudança de foco teria indiretamente colocado os trabalhadores “do lado dos ‘ins’, aqueles que tem um emprego do lado dos ‘privilegiados’ e ‘vantagens não merecidas’.”

Essa lógica, que redefine a questão social em ambos os lados – tanto para a esquerda quanto para a direita – como um conflito entre duas facções do proletariado, antes de um entre o capital e o trabalho, é algo que deve ser examinado. Pela direita, a ideia é limitar os direitos sociais da “população excedente” (surnuméraires) mobilizando os “trabalhadores” (actifs) contra os excedentes, e pela esquerda, a ideia é mobilizar a “população excedente” contra o emburguesamento dos “trabalhadores”. Ambos os lados, então, aceitam a centralidade das facções “excluídas” da força de trabalho estável, às custas dos “trabalhadores”.

Desse modo, podemos nos perguntar se, quando Margareth Tatcher contrastou os “miseráveis” “protegidos” e “mimados” daqueles “que trabalhavam”, ela não estaria expressando a forma inversa da tese de Foucault ou André Gorz? Essa nova doxa da direita conservadora neoliberal busca essencialmente, como Serge Hamili nota, “a redefinição da questão social de tal maneira que a linha divisória não mais divide o rico dos pobres, o capital do trabalho, mas sim duas frações do ‘proletariado’: aquela que está sofrendo de ‘fadiga de compaixão’ daquela que representa a ‘nação de Bem-Estar Social”.

Obviamente o conteúdo político dessas declarações do setor direitista diferem radicalmente daquelas desses autores do final dos anos 1970, mas ambos pressupõe que hoje é o “excluído” a raiz do problema, ou a solução; É a população excedente que tornou-se o subjeto político central e não mais a classe trabalhadora.

Realmente, como não podemos nós ver um estranho paradoxo entre a “não-classe” [non-class] de Gorz e os “miseráveis” [underclass] que é tão querida pelo ideólogo ultra-conservador Charles Murray? Tanto para Gorz quanto para o movimento neoliberal, não é mais o fato de ser explorado a fonte do problema, tanto quanto a relação da pessoa com o trabalho. Gorz vê no modo de vida da população excedente como uma “denúncia” do trabalho, e Thatcher vê como um “vício” de preguiça que precisa ser combatido. Um eleva o “direito a ser preguiçoso” ao status de virtude, e outro torna isso uma injustiça que deve ser destruída.

Mas debaixo dessa camada, essas duas versões funcionam pela mesma lógica. De tal maneira, tanto a esquerda quanto a direita querem que a “população excedente” seja o problema, assim sendo, suplantando aquelas velhas, vencidas, ideias dogmáticas que colocam a exploração no coração da crítica social.

Tanto a esquerda quanto a direita querem colocar duas facções do proletariado uma contra a outra, e que, com a evolução econômica do neoliberalismo, tem entrado em uma competição destrutiva para ambas. Como a filosofa Marxista Isabelle Garo descreveu tão bem, essa mudança teria ajudado “a trocar a exploração e sua crítica pela centralidade da vítima à qual é negada justiça, ao prisioneiro, ao dissidente, ao homossexual, ao refugiado, e etc.”

Entrevistador: Debray escreve em Modernes Catacombes [Catacumbas Modernas em tradução livre] que Foucault, o rebelde e subversivo, tornou-se um “filósofo oficial”. Como você entende esse paradoxo? E como você explica como Foucault pode seduzir tantos desses grupos radicais que, entretanto, afirmam com convicção que querem colocar um fim à Era neoliberal?

Entrevistado: É uma questão muito interessante, mas uma a qual eu não tenho uma resposta satisfatória. Iria sugerir, contudo, que é em grande parte à estrutura do campo acadêmico. Você teria que voltar a Bourdieu e aos preciosos trabalhos de Louis Pinto para entender melhor essa evolução.

Não deve nunca ser esquecido que aderir a uma “escola”, ou associar-se a uma certa perspectiva teórica, significa associar-se à um campo intelectual, onde há uma importante luta por acesso às posições dominantes. Em ultima instância, chamar alguém de marxista na França dos anos 1960 – quando o campo acadêmico era em parte dominado pelos auto-identificados marxistas, não tem o mesmo significado que ser um marxista hoje.

Conceitos e autores canônicos são obviamente instrumentos intelectuais, mas eles também correspondem à diversas estratégicas para tornar-se parte do campo e das lutas sobre ele. Desenvolvimentos intelectuais são então determinados em parte por relações de poder dentro do próprio campo.

Além disso, parece para mim que as relações de poder dentro do campo acadêmico tem mudado consideravelmente desde o final dos anos 1970: depois do declínio do marxismo, Foucault ocupou um lugar central. Na realidade, ele oferece uma posição confortável que permite que um certo grau de subversão seja introduzido sem que se infrinja os códigos da academia. Utilizar Foucault é relativamente valorizado, muitas vezes isso permite que seus defensores sejam publicados em jornais prestigiados, entrem em amplas redes intelectuais, publique livros, etc.

Vastos campos do mundo intelectual referem-se a Foucault em seu trabalho e tem ele falando sobre tudo – e seu contrário. Você pode ser consultor do MEDEF e editar suas aulas! [Uma referência a François Ewald, consultor da principal federação francesa de comércio; veja acima.] Eu diria que ele abre portas. Você não pode dizer o mesmo sobre Marx atualmente.

Entrevistador: Essa crítica das “margens” como centro do combate político poderia acabar agradando todo o tipo de contra-revolucionários na França ou na Bélgica. Você não está com medo de fazer o jogo deles?

Entrevistado: Eu creio que exista uma crítica “conservadora” de Foucault – e mais genéricamnte o que representou maio de 1968 na história social francesa. Essa crítica não é de maneira alguma marginal: você pode acha-la na crítica da direita conservadora como Eric Zemmour ou no National Front. Eles abertamente criticam todo o feminismo, o anti-racismo e o legado cultural de maio de 1968 enquanto tem muito menos a dizer sobre a pilhagem econômica neoliberal. É como se o problema fosse o liberalismo político que veio nos anos 1980, e apenas regredindo dessas evoluções societais que estaremos habilitados a “faire société“.

Podemos ouvir esse tipo de pensamento, de acordo com o qual foi a destruição de valores familiares ou formas comunitárias dos laços sociais que permitiram a expansão do neoliberalismo. Pode existir um grão de verdade nesse análise, mas eles estão totalmente delirantes quando propõe uma volta a esses estilos de vida mais “tradicionais”. Nós estamos indo rumo a um tipo de liberalismo muito mais autoritário, com um retorno aos valores familiares, um retorno a total fantasia da cultura nacional, e ao bom e velho capitalismo pré-globalizado…

Quanto à ideia de “fazer o jogo deles”, eu não vejo isso como um problema. Se existe um problema com certos aspectos do legado de maio de 1968, o papel da esquerda não é fechar os olhos porque a extrema direita está dizendo isso, mas, ao contrário, apresentar seu próprio julgamento, formular sua própria crítica, para que não perca totalmente a batalha ideológica. Essa é a tarefa que devemos começar se quisermos reconstruir a esquerda que é tanto radical quanto popular.

Podemos criticar Foucault?* – Parte 1**

*Tradução da entrevista de Daniel Zamora,  presente na matéria Can We Criticiza Foucault, do site Jacobin (para lê-la em inglês, clique aqui).

**Para que a postagem não fique muito extensa a entrevista será dividida em 2 partes. O link direto para a parte dois encontra-se no final dessa entrevista.

***Minha resposta para a repercussão da publicação da entrevista, pode ser lida aqui.

****Para ler o artigo traduzido de Daniel Zamora que complementa o argumento da entrevista, clique aqui.

Entrevistador: No livro Foucault, Sa Pensée, Sa Personne, o amigo de Foucault Paul Veyne escreve que ele era inclassificável, politica e filosoficamente: “Ele não acreditava nem em Marx, nem em Freud, nem na Revolução, nem em Mao, no particular ele glosava de sentimentos progressistas, e eu não sabia de nenhuma posição sua embasada sobre os vastos problemas do Terceiro Mundo, consumismo, capitalismo, imperialismo americano.”

Você escreve que ele sempre “esteve um passo a frente de seus contemporâneos”. O que você quis dizer com isso?

Entrevistado: Deve ser dito que Foucault coloca holofotes em temas que eram claramente ignorados, até mesmo marginalizados, pela intelectualidade dominante de sua era. Seja sobre psiquiatria, sobre prisões ou sexualidade, seus trabalhos claramente marcaram um vasto terreno intelectual. Claro que ele era parte de uma Era, um contexto social muito mais amplo, e não foi o primeiro a trabalhar em tais áreas. Esses temas estavam brotando de todos os lugares e tornando-se objetos de movimentos políticos e sociais significativos.

Na Itália, por exemplo, o movimento anti-psiquiátrico iniciado por Franco Basaglia não precisou esperar que Foucault desafiasse o asilo mental para formular suas próprias propostas políticas para substituir aquela instituição. Assim, obviamente Foucault não originou todos esses movimentos – ele nunca reivindicou isso – mas ele claramente abriu o caminho para um grande número de historiadores e acadêmicos que trabalhavam em novos temas, novos territórios, que pouco haviam sido explorados.

Ele nos ensinou a sempre questionar politicamente coisas que na época pareciam além de qualquer suspeita. Eu ainda me lembro de sua famosa discussão com Chomsky, onde ele declarou que, em sua opinião, a verdadeira tarefa política era criticar instituições que eram “aparentemente neutras e independentes” e ataca-las “de tal maneira que sua violência obscura fosse desmascarada”.

Eu posso ter algumas dúvidas sobre a natureza de suas críticas – nós iremos voltar a isso, tenho certeza – mas mesmo assim era um projeto extremamente novo e estimulante.

Entrevistador: Tornando Foucault compatível com o neoliberalismo, seu livro poderia “arrancar muitas penas”.

Entrevistado: Eu espero que sim. Essa é meio que a ideia do livro. Eu queria romper com essa imagem consensual demais de Foucault como estando totalmente em oposição ao neoliberalismo no final de sua vida. Desse ponto de vista, eu acredito que as interpretações tradicionais de seus últimos trabalhos são errôneas, ou, pelo menos, perdem parte da questão. Ele se torna uma espécie de figura intocável para parte da esquerda radical . Críticas à ele são tímidas, para dizer o mínimo.

A cegueira é surpreendente porque até mesmo eu fiquei abismado pela indulgência que Foucault mostrou frente ao neoliberalismo quando eu mergulhei em seus textos. Não são apenas suas aulas no Collège de France, mas também inúmeros artigos e entrevistas, tudo isso está acessível.

Foucault era altamente atraído pelo liberalismo econômico: ele via nisso a possibilidade de uma forma de governabilidade que era muito menos normativa e autoritária que o socialismo e o comunismo, que ele via como totalmente obsoletos. Ele especificamente via no neoliberalismo uma forma política “muito menos burocrática” e “muito menos disciplinante” do que a oferecida no Estado de Bem Estar Social pós Segunda Guerra Mundial. Ele parecia imaginar um neoliberalismo que não iria projetar seus modelos antropológicos no indivíduo, que iria oferecer aos indivíduos maior autonomia comparativamente ao Estado.

Foucault parecia, no final dos anos 70, estar migrando para a “segunda esquerda”, a minoritária mas intelectualmente influente tendência do socialismo francês, juntamente com figuras como Pierre Rosanvallon, que os escritos Foucault apreciava. Ele achava sedutor esse anti-estatismo e esse desejo de “desestatificar a sociedade francesa”.

Até Colin Gordon, um dos principais tradutores e comentadores sobre Foucault no mundo Anglo-Saxão, não tem nenhum problema em dizer que vê em Foucault um precursor à Terceira Via de Tony Blair, incorporando estratégias neoliberais dentro do corpus social-democrata.

Entrevistador: Ao mesmo tempo, seu livro não é uma denuncia ou uma investigação processual. Como você disse antes, você reconhece a qualidade de seu trabalho.

Entrevistado: Claro! Eu estou fascinado por sua personalidade e trabalho. Para mim, é precioso. Eu também apreciei o trabalho recentemente publicado por Geoffrey de Lagasnerie, La dernière leçon de Michel Foucault [ A última lição de Michel Focault, lançado no Brasil pela editora Três Estrelas]. Por fim, seu livro é meio que o lado inverso do nosso, já que ele vê em Foucault um desejo de usar o neoliberalismo para reinventar a esquerda. Nossa perspectiva é que ele usa o neoliberalismo de maneira mais profunda que apenas como uma ferramenta: ele adota a visão neoliberal para criticar a esquerda.

Mesmo assim, Lagasnerie enfatiza um ponto que para mim é essencial e vai no ponto central de muitos problemas na esquerda crítica: Ele argumenta que Foucault foi um dos primeiros a levar os textos neoliberais a sério e a lê-los rigorosamente. Antes dele, aqueles produtos intelectuais foram geralmente dispensados, considerados como pura propaganda. Para Legasnerie, Foucault explodiu a barreira simbólica que havia sido construída pela intelectualidade de esquerda contra a tradição neoliberal.

Sequestrado pelo sectarismo do mundo acadêmico, nenhuma leitura estimulante existia que levasse em consideração os argumentos de Friedrich Hayek, Gary Becker, ou Milton Friedman. Nesse ponto, podemos apenas concordar com Legasnerie: Foucault nos permitiu ler e entender esses autores, para descobrir neles um complexo e estimulante corpo de pensamento. Nesse ponto eu concordo totalmente com ele. É inegável que Foucault sempre tentou arduamente investigar corpus teóricos de horizontes diametralmente diferentes e constantemente questionar suas próprias ideias.

A intelectualidade de esquerda infelizmente nem sempre conseguiu fazer parecido. Tem frequentemente permanecido presa em uma atitude “de escola”, recusando a priori considerar ou debater ideias e tradições que começam com premissas diferentes das suas. Essa é uma atitude muito danosa. Nos encontramos entre pessoas que praticamente nunca leram os pais fundadores da teoria política que eles estão supostamente atacando! Seus conhecimentos são geralmente limitados a alguns poucos lugares comuns.

Entrevistador: Em seu livro, você contesta a visão de Seguridade Social e redistribuição de riqueza. Você poderia falar mais sobre isso?

Entrevistado: É praticamente uma questão inexplorada dentro do imenso corpus dos “foucaultianos”. Para dizer a verdade, eu não pensei que trabalharia nisso quando eu estava pensando sobre o planejamento do livro. Meu interesse em seguridade social não era diretamente conectado a Foucault, mas minha pesquisa sobre o assunto levou-me a pensar como, nos últimos 40 anos, nós fomos de uma política focada em combater a desigualdade, baseada na seguridade social, para uma política focada em combater a pobreza, crescentemente organizada em alocações específicas de verba e populações alvo.

Ir de um conceito ao outro transformou totalmente a visão de justiça social. Combater desigualdade (e procurar diminuir disparidades absolutas) é muito diferente de combater pobreza (e procurar fornecer o mínimo para os mais necessitados). Completar essa pequena revolução necessitou de anos de deslegitimação da seguridade social e das instituições da classe trabalhadora.

Foi enquanto lia atentamente os textos do Foucault “tardio” (do fim dos anos 70 ao início dos anos 80) que tornou-se claro para mim que ele tomou parte nessa operação. Ele não apenas desafiou a seguridade social, ele foi também seduzido pela alternativa de um imposto de renda negativo proposto por Milton Friedman nesse período. Para ele, os mecanismos de seguridade e assistência social, que ele colocava no mesmo plano que as prisões, os quartéis, ou a escola, eram instituições indispensáveis “para o exercício do poder nas sociedades modernas”.

É também interessante notarmos que no trabalho central de François Ewald, ele não hesita ao dizer que o “Estado de Bem Estar Social completa o sonho do ‘biopoder'”. Nada menos que isso! [ Ewald foi discípulo e assistente de Foucault, agora é um intelectual alinhado com a indústria francesa de seguros e ao “Medef”, a principal federação de negócios da França].

Dado os muitos defeitos do sistema de seguridade social clássico, Foucault estava interessado em troca-lo por um imposto de renda negativo. A ideia era relativamente simples: o Estado paga um benefício para todos aqueles que estejam abaixo de um certo nível de renda. Arrumar as coisas de maneira que, com necessidade de pouca administração, ninguém ficará abaixo de um nível mínimo.

Na França, esse debate apareceu em 1974, no livro de Lionel Stóleru Vaincre la pauvreté dans les pays riches [Conquistando a pobreza nos países ricos, em tradução livre]. É também interessante notar que Foucault encontrou-se com Stóleru várias vezes quando Stóleru era um conselheiro técnico na equipe do [presidente direitista da França] Valéry Giscard D’Estaing. Um argumento importante perpassa seu trabalho e atraiu a atenção de Foucault: no espírito de Friedman, Stóleru desenha uma distinção entre uma política que persegue a igualdade (socialismo) e uma política que simplesmente busca eliminar a pobreza sem desafiar as desigualdades (liberalismo).

Para Stóleru, e eu estou citando, “doutrinas […] podem: ou nos levar para uma política visando eliminar a pobreza, ou a uma política que busque limitar a disparidade entre os ricos e os pobres”. É isso que ele chama de “a fronteira entre pobreza absoluta e pobreza relativa”. O primeiro refere-se simplesmente a um nível arbitrário (que o imposto de renda negativo lida) e o outro refere-se à todas as disparidades entre indivíduos (que a seguridade social e o Estado de Bem Estar Social lidam).

Aos olhos de Stóleru, “a economia de mercado é capaz de assimilar ações para combater a pobreza absoluta” mas “é incapaz digerir remédios muito fortes contra a pobreza relativa”. É por isso, ele argumenta, [que] “Eu acredito que a diferença entre pobreza absoluta e pobreza relativa é de fato a distinção entre capitalismo e socialismo”. Portanto, o que está em questão entre uma e outra é uma questão politica: a aceitação do capitalismo como economia dominante, ou não.

Desse ponto de vista, o entusiasmo pouco escondido  de Foucault com a proposta de Stóleru era parte de um movimento maior, que surgiu juntamente com o declínio da filosofia igualitária da seguridade social em favorecimento de uma luta contra a “pobreza” orientada pelo livre mercado. Em outras palavras, e por mais surpreendente que possa parecer, a luta contra a pobreza, longe de limitar o efeito de políticas neoliberais, tem na verdade militado a favor de sua hegemonia política.

Portanto, não é surpreendente ver as maiores fortunas do mundo, como as de Bill Gates ou George Soros, engajadas nessa luta contra a pobreza, mesmo enquanto apoia, sem nenhuma contradição aparente, a liberalização dos serviços públicos, a destruição de todos esses mecanismos de distribuição de renda, e as “virtudes” do neoliberalismo.

O combate a pobreza ainda permite a inclusão de questões sociais na agenda política sem que se lute pela desigualdade e o mecanismo estrutural que a produz. Então essa evolução tem sido parte e parcela do neoliberalismo, e o objetivo do meu texto é mostrar que Foucault teve sua cota de responsabilidade nesse desenvolvimento.

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O Choque Neoliberal

Alguma coisa já foi falada aqui no blog sobre o ataque neoliberal e sua doutrina de choque, a conjunção entre liberalização capitalista da economia e a necessidade do choque em variados níveis psico-sociais. Entretanto, gostaria agora de abordar novas questões não comentadas quando usei como referência Naomi Klein e a situação da psiquiatria como controle social no século XX brasileiro.

Uma questão central no recente livro de Paulo Arantes, O Novo Tempo do Mundo, é a derrocada do horizonte de expectativa, fator agregador importante para não cair na banalidade do dia a dia, como já teria dito alguém que me foge a memória agora. O horizonte de expectativa, a utopia, seja ela qual for, como já disse também Eduardo Galeano, nos faz permanecer caminhando em frente. Entretanto, por mais que pareça muito abstrato, a ideia de horizonte de expectativa tem implicações fundamentais. O companheiro comunista deve construir o comunismo diariamente, sempre mantendo no seu horizonte de expectativa o aperfeiçoamento total da igualdade e liberdade entre os seres humanos. Sendo assim, um dos principais conceitos comunistas seria a igualdade.

A expectativa de igualdade e liberdade, horizonte que perpassou grande parte do século XX, foi sendo gradativamente desmantelada pelas mãos do neoliberalismo. Como comentado por Daniel Zamora em parte de sua entrevista sobre Michel Foucault dada a revista Jacobin (que está sendo traduzida pelo blog), Foucault, em seus trabalhos tardios, teria sido seduzido pela ideologia aparentemente anti-estatal neoliberal, acreditando assim que a “liberdade” de mercado seria menos opressiva que a opressão do Estado capitalista por si só. Essa influência neoliberal o teria feito apoiar iniciativas como o imposto de renda negativo e outras medidas de gestão social através de políticas públicas voltadas a reduzir a pobreza, defendidas, inclusive, por Milton Friedman.

Nós, brasileiros, temos plena noção de como administrar essa gestão da pobreza através de políticas sociais, já que vivemos a 13 anos sob governos petistas. Como já afirmado por Paulo Arantes em fala feita na II Feira Antropofágica de Opinião, o PT fez uma gestão internacionalmente consagrada do rebaixamento do horizonte de expectativa que primeiramente teria sido visto com choque na Europa dos anos 80, tendo chegado ao Brasil em uma transição gradual e bem gerida de 13 anos. E isso porque, como apontado por Daniel Zamora, ocorre uma mudança significativa quando o horizonte de expectativa passa do fim da desigualdade para o fim da pobreza! Pior, essa mudança no horizonte de expectativa não apenas elimina o horizonte utópico que busca a igualdade e liberdade a todos, como também ajuda a desmobilizar as organizações de trabalhadores e outros movimentos.

O rebaixamento do horizonte de expectativa também teria implicações consideráveis se somássemos à todo esse quadro a interessante análise que Silvia Viana fez em seu livro Rituais de Sofrimento, que liga, creio eu que através do Narrador de Walter Benjamin, os Reality Shows atuais e as características do mundo do trabalho.

Torna-se imprescindível, portanto, um reavivamento do horizonte de expectativa positivo que o comunismo é capaz de trazer. Nesse sentido, num caminho apontado por Michel Lowy em seu livro Revolta e Melancolia, talvez seja possível realizar tal operação através do romantismo político. Ficaremos, então, com duas frases para remontar tal situação. A primeira do próprio Lowy “A Utopia, ou será romântica ou não será”. A segunda de um personagem não tão progressista, mas certamente um interessante interprete: Fagner. “Os meus olhos tem a fome do horizonte”.

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Bibliografia e referências:

Doutrina de Choque – Naomi Klein (documentário aqui)

O Novo Tempo do Mundo – Paulo Arantes

Can We Criticiza Foucault? – Daniel Zamora (tradução realizada por esse blog aqui) (texto original aqui)

Fala na II Feira Antropofágica de Opinião – Paulo Arantes (disponível aqui)

Fala na II Feira Antropofágica de Opinião – Silvia Viana (disponível aqui)

Revolta e Melancolia – Michel Lowy

Existe neutralidade na rede?

Muito se fala em preservar a neutralidade na internet. Realmente, desde seu surgimento, não são poucos os que apontam para a capacidade multiplicadora da inventividade, da divulgação de conteúdo, da possibilidade ímpar de transpor mais e mais formas de trabalho executavas por humanos para as máquinas. Manuel Castells se encantará com o potencial integrador que a internet gera, criando redes de indignação e esperança. Quando pensamos em acontecimentos recentes não menos importantes como o movimento Ocuppy tomando de assalto praças mundo a fora, tais características parecem ainda mais uma realidade. Da mesma maneira, a profusão de material online parece ter ajudado a promover (ou pelo menos radicalizar) causas até pouco tempo sem muita visibilidade. Isso tudo sem contar o submundo da deep web, claro.

Local onde a maioria do material legalmente colocado na internet está “hospedado”, os EUA logo avançaram rumo à adequação legislativa do mundo virtual. Na época, dois projetos de lei ficaram famosos, o SOPA e o PIPA. Claro que tal medida pode ser vista na esteira de outras medidas de exceção como o Patriotic Act, em uma clara tentativa de estender os olhos do panóptico. Tal interpretação não é de toda equivocada. Entretanto, aqueles que vêem os desejos de controle do Leviatã não deveriam se assustar tanto com tentativas estatais de legislar sobre a internet, e o motivo pode parecer simples, mas também tem a ver com um dos maiores debates sobre a rede mundial de computadores.

A internet é capaz de formar espaço público? No Facebook, por exemplo, a criação de um perfil, ao menos que sejam feitas modificações nas configurações de privacidade do usuário, torna-o de livre acesso não só àqueles que fazem parte da rede, como também aparece até para aqueles que fazem pesquisas em sites de busca tipo Google. De alguma maneira, então, a internet estaria gerando espaço “público” virtual, no qual as pessoas poderiam se expressar e sofrer as consequências de tal ação. De maneira diferente do espaço público em contradição ao espaço privado da vida real, a internet mescla os dois campos, transformando a vida privada em espaço público virtual de discussão (e isso aplica-se não só quando postamos alguma opinião, como também quando marcamos que fomos à algum estabelecimento, ou quando postamos fotos). Entretanto, tal espaço “público” não somente pode ser gerenciado pelo usuário, que, por exemplo, configurando suas opções de privacidade na rede social pode fazer-se visível apenas para um restrito grupo de colegas, como também pode ser gerenciado pela própria empresa que administra tal espaço. No caso da rede social já citada, o Facebook, foi evidenciado recentemente que, através de um experimento, a empresa conseguiu manipular dados, fazendo com que as pessoas tivessem mais acesso à um tema escolhido pela empresa, em detrimento de vários outros, sendo possível assim manipular emoções de usuários.

A análise de sentimentos na web é uma área de pesquisa que congrega tanto a linguística e seus ramos, como também a computação e seus ramos. Buscando analisar informações em tempo hábil, o que para os padrões da internet seriam milhões de frases por minuto, desenvolvedores buscam aliar a capacidade contábil de uma máquina com a aptidão humana da interpretação. Nenhuma grande novidade no mundo da robótica. Contudo, a análise de sentimentos não somente está tentando otimizar a análise computacional de textos, como também está descobrindo como as emoções podem ser propagadas pela rede, como em uma pesquisa realizada na China, na qual foi averiguado que a raiva de propaga com mais intensidade que o prazer, em uma rede social chinesa estilo Twitter. O avanço na análise de dados é extraordinário. Atualmente, as máquinas são capazes de acertar com mais de 90% de precisão frases positivas, negativas, e etc… O grande desafio hoje seria a possibilidade de compreender computacionalmente a ironia e o sarcasmo, casos em que as máquinas acertam apenas pouco mais de 60% dos casos! Nesse sentido percebe-se que o poder de manipulação de opiniões na rede seria ineficiente se ocorresse através da censura, mas poderia ser muito bem utilizado com a mudança de alguns algorítimos de pesquisa e a evolução da análise textual realizada por computadores.

O grande perigo para a manipulação surgiria, portanto, pelas mãos daquele que também pode perigosamente acessar seus dados e vende-los, ou seja, das próprias redes sociais. Mas calma, a ideia aqui não é demonstrar como a iniciativa privada obstrui o Estado impondo seus próprios interesses. Isso porque o Estado age em parceria com tal iniciativa privada, em busca de controle e supervisão. Exemplo disso é não só a requisição sistemática de informações pelos governo às redes sociais, como também as parcerias firmadas entre governos e tais empresas para a prestação de serviços diversos no melhor estilo gerencialista pós virada de século. No caso brasileiro, o governo Roussef sentou-se à mesa com Zuckenberg poucas semanas atrás para discutir a implementação de conexões pelo país.

A punição através da espera e sua relação com os deslocamentos urbanos

“Por favor, não me deixe permanecer / na sala de espera […] / Todos estão sempre tristes / porque eles não conseguem levantar / Ahhhhhh vamos lá e levante-se!” Fugazi

O preço da tarifa de ônibus em São Paulo foi o estopim de uma das maiores mobilizações sociais vistas nos últimos anos no Brasil. As famigeradas Jornadas de Junho tomaram de assalto as ruas de São Paulo, e na sequência, de várias outras cidades brasileiras, e foram violentamente reprimidas pela polícia, como de praxe ocorre com todo e qualquer movimento que coloque em risco o status quo de dominação que impera no país a séculos. A definição precisa do motivo da agitação em 2013 ainda permanece em debate. Na coletânea de textos feita pela editora Boitempo em conjunto com a Carta Maior (Cidades Rebeldes, 2013) a questão urbana como um todo é apontada como motivo da insatisfação. A própria coleção Tinta Vermelha (composta por três livros lançados à preço de impressão – 10 reais) pode ajudar a contextualizar as Jornadas. Outro livro da série, Occupy (2012), traz outros textos que comentam protestos similares ao brasileiro, do Occupy Wall Street ao Occupy Tahrir Square. Entretanto, não nos interessa aqui encontrar elementos que legitimem alguma teoria de sistema mundo, deixemos esse tema para outra postagem.

Talvez a simples questão tarifária, apesar do autor que escreve reconhecer a centralidade dos gastos com transporte para uma família menos abastada, tenha sido focada pela grande mídia como uma maneira de deslegitimar o movimento. Quase dois anos depois das manifestações, grande parte daqueles que participam das passeatas contra a presidência resmungam que “realmente, foi só pelos 20 centavos”. Mesmo na época das manifestações, muitos foram os que alertaram para a possibilidade que existia das Jornadas serem caracterizadas pela versão conservadora da história como “A revolta dos 20 centavos”. Da mesma maneira, o enfoque no aumento da tarifa como motivação última das manifestações também foi criticado quando, meses depois, o aumento ocorreu, e continuará a ocorrer, sendo assim, a mobilização teria sido, no mínimo, paliativa.

Tais argumentos poderiam muito bem servir para esconder a real motivação do que está por trás da revolta urbana. Paulo Arantes, em uma parte (chamada Zonas de Espera) do segundo capítulo de seu último livro (O Novo Tempo do Mundo, 2014) trata de uma temática que nos é familiar, mas que permanece relativamente estranhada. Na tentativa de estabelecer o que seria esse novo tempo do mundo, o filósofo chama a atenção para o “tempo morto”. O ato de esperar tornou-se uma forma de punição, já que “o aumento exponencial da velocidade de rotação do capital intensifica a exploração do trabalho, que por sua vez se fragmenta e dessocializa”, sendo assim (e citando o livro Globalização, de Zygmund Bauman) a mobilidade “tornou-se o fator de estratificação mais poderoso e mais cobiçado, a matéria de que são feitas e refeitas diariamente as novas hierarquias sociais, políticas, econômicas e culturais”. Em contraposição ao moderno tempo “congelado” do fordismo, as elites cinéticas atuais exercem sua dominação através da movimentação com maior velocidade. Sendo assim, a imobilização causada pela espera forçada (mais uma vez no livro Globalização) é punitiva pois estar proibido de mover-se é uma fonte inesgotável de dor, incapacidade e importância.

A relação entre espera e mobilidade se torna clara se analisada através da criação social que é o tecido urbano. E a questão aqui não se resume ao tipo de transporte, mas também tem relação íntima com ele. Quanto mais perto do topo da pirâmide social, mais rápidos e cômodos, exclusivos, são os meios de locomoção disponíveis, como o helicóptero. Na outra ponta, a base da mesma pirâmide não só enfrenta horas em pé dentro de um ônibus (muitas vezes lotado) para chegar em casa ou ao trabalho, como também termina, muitas vezes, seguindo a pé. Flávio Villaça, em seu livro Reflexões sobre as Cidades Brasileiras (2012), aponta uma forma de dominação específica praticada na cidade: a manipulação do tempo gasto nos deslocamentos espaciais feitos pelos habitantes da urbe. Para além do tipo de transporte, não seria coincidência, então, que condomínios fechados fiquem perto de grandes entroncamentos viários como autopistas, estradas ou avenidas. Muito menos é de se espantar que a malha metroviária de São Paulo não se estenda além dos bairros centrais.

A punição através da imobilização de grandes períodos de tempo nos deslocamentos diários ocorre não necessariamente de maneira premeditada, mas serve muito bem aos interesses daqueles que necessitam de mais velocidade e mais tempo para manter sua posição social dominadora.

Ilustrando o tempo de espera, um clássico da banda Fugazi: Sala de espera

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Bibliografia e referências

Cidades Rebeldes – Vários Autores

Ocuppy – Vários Autores

O Novo Tempo do Mundo – Paulo Arantes

Reflexões sobre as Cidades Brasileiras – Flávio Villaça