Existe neutralidade na rede?

Muito se fala em preservar a neutralidade na internet. Realmente, desde seu surgimento, não são poucos os que apontam para a capacidade multiplicadora da inventividade, da divulgação de conteúdo, da possibilidade ímpar de transpor mais e mais formas de trabalho executavas por humanos para as máquinas. Manuel Castells se encantará com o potencial integrador que a internet gera, criando redes de indignação e esperança. Quando pensamos em acontecimentos recentes não menos importantes como o movimento Ocuppy tomando de assalto praças mundo a fora, tais características parecem ainda mais uma realidade. Da mesma maneira, a profusão de material online parece ter ajudado a promover (ou pelo menos radicalizar) causas até pouco tempo sem muita visibilidade. Isso tudo sem contar o submundo da deep web, claro.

Local onde a maioria do material legalmente colocado na internet está “hospedado”, os EUA logo avançaram rumo à adequação legislativa do mundo virtual. Na época, dois projetos de lei ficaram famosos, o SOPA e o PIPA. Claro que tal medida pode ser vista na esteira de outras medidas de exceção como o Patriotic Act, em uma clara tentativa de estender os olhos do panóptico. Tal interpretação não é de toda equivocada. Entretanto, aqueles que vêem os desejos de controle do Leviatã não deveriam se assustar tanto com tentativas estatais de legislar sobre a internet, e o motivo pode parecer simples, mas também tem a ver com um dos maiores debates sobre a rede mundial de computadores.

A internet é capaz de formar espaço público? No Facebook, por exemplo, a criação de um perfil, ao menos que sejam feitas modificações nas configurações de privacidade do usuário, torna-o de livre acesso não só àqueles que fazem parte da rede, como também aparece até para aqueles que fazem pesquisas em sites de busca tipo Google. De alguma maneira, então, a internet estaria gerando espaço “público” virtual, no qual as pessoas poderiam se expressar e sofrer as consequências de tal ação. De maneira diferente do espaço público em contradição ao espaço privado da vida real, a internet mescla os dois campos, transformando a vida privada em espaço público virtual de discussão (e isso aplica-se não só quando postamos alguma opinião, como também quando marcamos que fomos à algum estabelecimento, ou quando postamos fotos). Entretanto, tal espaço “público” não somente pode ser gerenciado pelo usuário, que, por exemplo, configurando suas opções de privacidade na rede social pode fazer-se visível apenas para um restrito grupo de colegas, como também pode ser gerenciado pela própria empresa que administra tal espaço. No caso da rede social já citada, o Facebook, foi evidenciado recentemente que, através de um experimento, a empresa conseguiu manipular dados, fazendo com que as pessoas tivessem mais acesso à um tema escolhido pela empresa, em detrimento de vários outros, sendo possível assim manipular emoções de usuários.

A análise de sentimentos na web é uma área de pesquisa que congrega tanto a linguística e seus ramos, como também a computação e seus ramos. Buscando analisar informações em tempo hábil, o que para os padrões da internet seriam milhões de frases por minuto, desenvolvedores buscam aliar a capacidade contábil de uma máquina com a aptidão humana da interpretação. Nenhuma grande novidade no mundo da robótica. Contudo, a análise de sentimentos não somente está tentando otimizar a análise computacional de textos, como também está descobrindo como as emoções podem ser propagadas pela rede, como em uma pesquisa realizada na China, na qual foi averiguado que a raiva de propaga com mais intensidade que o prazer, em uma rede social chinesa estilo Twitter. O avanço na análise de dados é extraordinário. Atualmente, as máquinas são capazes de acertar com mais de 90% de precisão frases positivas, negativas, e etc… O grande desafio hoje seria a possibilidade de compreender computacionalmente a ironia e o sarcasmo, casos em que as máquinas acertam apenas pouco mais de 60% dos casos! Nesse sentido percebe-se que o poder de manipulação de opiniões na rede seria ineficiente se ocorresse através da censura, mas poderia ser muito bem utilizado com a mudança de alguns algorítimos de pesquisa e a evolução da análise textual realizada por computadores.

O grande perigo para a manipulação surgiria, portanto, pelas mãos daquele que também pode perigosamente acessar seus dados e vende-los, ou seja, das próprias redes sociais. Mas calma, a ideia aqui não é demonstrar como a iniciativa privada obstrui o Estado impondo seus próprios interesses. Isso porque o Estado age em parceria com tal iniciativa privada, em busca de controle e supervisão. Exemplo disso é não só a requisição sistemática de informações pelos governo às redes sociais, como também as parcerias firmadas entre governos e tais empresas para a prestação de serviços diversos no melhor estilo gerencialista pós virada de século. No caso brasileiro, o governo Roussef sentou-se à mesa com Zuckenberg poucas semanas atrás para discutir a implementação de conexões pelo país.

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A punição através da espera e sua relação com os deslocamentos urbanos

“Por favor, não me deixe permanecer / na sala de espera […] / Todos estão sempre tristes / porque eles não conseguem levantar / Ahhhhhh vamos lá e levante-se!” Fugazi

O preço da tarifa de ônibus em São Paulo foi o estopim de uma das maiores mobilizações sociais vistas nos últimos anos no Brasil. As famigeradas Jornadas de Junho tomaram de assalto as ruas de São Paulo, e na sequência, de várias outras cidades brasileiras, e foram violentamente reprimidas pela polícia, como de praxe ocorre com todo e qualquer movimento que coloque em risco o status quo de dominação que impera no país a séculos. A definição precisa do motivo da agitação em 2013 ainda permanece em debate. Na coletânea de textos feita pela editora Boitempo em conjunto com a Carta Maior (Cidades Rebeldes, 2013) a questão urbana como um todo é apontada como motivo da insatisfação. A própria coleção Tinta Vermelha (composta por três livros lançados à preço de impressão – 10 reais) pode ajudar a contextualizar as Jornadas. Outro livro da série, Occupy (2012), traz outros textos que comentam protestos similares ao brasileiro, do Occupy Wall Street ao Occupy Tahrir Square. Entretanto, não nos interessa aqui encontrar elementos que legitimem alguma teoria de sistema mundo, deixemos esse tema para outra postagem.

Talvez a simples questão tarifária, apesar do autor que escreve reconhecer a centralidade dos gastos com transporte para uma família menos abastada, tenha sido focada pela grande mídia como uma maneira de deslegitimar o movimento. Quase dois anos depois das manifestações, grande parte daqueles que participam das passeatas contra a presidência resmungam que “realmente, foi só pelos 20 centavos”. Mesmo na época das manifestações, muitos foram os que alertaram para a possibilidade que existia das Jornadas serem caracterizadas pela versão conservadora da história como “A revolta dos 20 centavos”. Da mesma maneira, o enfoque no aumento da tarifa como motivação última das manifestações também foi criticado quando, meses depois, o aumento ocorreu, e continuará a ocorrer, sendo assim, a mobilização teria sido, no mínimo, paliativa.

Tais argumentos poderiam muito bem servir para esconder a real motivação do que está por trás da revolta urbana. Paulo Arantes, em uma parte (chamada Zonas de Espera) do segundo capítulo de seu último livro (O Novo Tempo do Mundo, 2014) trata de uma temática que nos é familiar, mas que permanece relativamente estranhada. Na tentativa de estabelecer o que seria esse novo tempo do mundo, o filósofo chama a atenção para o “tempo morto”. O ato de esperar tornou-se uma forma de punição, já que “o aumento exponencial da velocidade de rotação do capital intensifica a exploração do trabalho, que por sua vez se fragmenta e dessocializa”, sendo assim (e citando o livro Globalização, de Zygmund Bauman) a mobilidade “tornou-se o fator de estratificação mais poderoso e mais cobiçado, a matéria de que são feitas e refeitas diariamente as novas hierarquias sociais, políticas, econômicas e culturais”. Em contraposição ao moderno tempo “congelado” do fordismo, as elites cinéticas atuais exercem sua dominação através da movimentação com maior velocidade. Sendo assim, a imobilização causada pela espera forçada (mais uma vez no livro Globalização) é punitiva pois estar proibido de mover-se é uma fonte inesgotável de dor, incapacidade e importância.

A relação entre espera e mobilidade se torna clara se analisada através da criação social que é o tecido urbano. E a questão aqui não se resume ao tipo de transporte, mas também tem relação íntima com ele. Quanto mais perto do topo da pirâmide social, mais rápidos e cômodos, exclusivos, são os meios de locomoção disponíveis, como o helicóptero. Na outra ponta, a base da mesma pirâmide não só enfrenta horas em pé dentro de um ônibus (muitas vezes lotado) para chegar em casa ou ao trabalho, como também termina, muitas vezes, seguindo a pé. Flávio Villaça, em seu livro Reflexões sobre as Cidades Brasileiras (2012), aponta uma forma de dominação específica praticada na cidade: a manipulação do tempo gasto nos deslocamentos espaciais feitos pelos habitantes da urbe. Para além do tipo de transporte, não seria coincidência, então, que condomínios fechados fiquem perto de grandes entroncamentos viários como autopistas, estradas ou avenidas. Muito menos é de se espantar que a malha metroviária de São Paulo não se estenda além dos bairros centrais.

A punição através da imobilização de grandes períodos de tempo nos deslocamentos diários ocorre não necessariamente de maneira premeditada, mas serve muito bem aos interesses daqueles que necessitam de mais velocidade e mais tempo para manter sua posição social dominadora.

Ilustrando o tempo de espera, um clássico da banda Fugazi: Sala de espera

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Bibliografia e referências

Cidades Rebeldes – Vários Autores

Ocuppy – Vários Autores

O Novo Tempo do Mundo – Paulo Arantes

Reflexões sobre as Cidades Brasileiras – Flávio Villaça

A Fantasia Libertária*

*Texto de Paul Krugman para o New York Times (clique aqui para ler o original em inglês)

Na última revista Times, Robert Draper traçou um perfil dos jovens libertários – falando genericamente, pessoas que combinam o livre-mercado com visões sociais permissivas – e se perguntou se estaríamos caminhando para um “momento libertário”. Bem, provavelmente não. Pesquisas sugerem que jovens americanos tendem a apoiar mais um “governo grande” que os mais velhos. Mas eu gostaria de fazer uma pergunta diferente: É a economia libertária efetivamente realista?

A resposta é não. E a razão pode ser resumida em apenas uma palavra: fósforo.

Como você provavelmente deve ter ouvido, recentemente a cidade de Toledo avisou seus habitantes para que não tomassem a água da cidade. Porque? Contaminação com uma alga tóxica que floresceu no lago Erie, principalmente devido ao descarte de fósforo de fazendas.

Quando eu li sobre isso, tocou uma campainha. Semana passada, muitos republicanos influentes falaram em uma conferência patrocinada pelo blog Red State – E eu me lembrei de um violento discurso anti-governo de alguns anos trás, feito por Erick Erickson, o fundador do blog. Erickson sugeriu que a regulamentação opressiva do governo teria chegado em um nível tal que os cidadãos poderiam querer “marchar até a casa do legislador estadual, tira-lo de lá, e bater nele até que fique seriamente machucado.” E qual a razão para tamanha fúria? O banimento do fosfato da fórmula do detergente para máquinas de lavar. Afinal, porque oficiais governamentais iriam querer fazer tal coisa?

Um aparte: os estados que circundam o lago Erie baniram ou limitaram o fosfato em detergentes a muito tempo, temporariamente trazendo o lago “do fundo do poço”. Entretanto, a agricultura tem até agora conseguido escapar de controles efetivos, então o lago está morrendo de novo, e será necessária mais intervenção governamental para salva-lo.

O ponto é que antes de você irritar-se sem justificativa com a interferência do governo na sua vida, você deve querer perguntar-se porque o governo está interferindo. Geralmente – não todas as vezes, claro, mas com muito mais frequência do que os fieis do livre-mercado fariam você acreditar – existe, de fato, uma boa razão para o governo se envolver. Controles de poluição são o exemplo mais simples, mas não o único.

Libertários inteligentes sempre souberam que existem problemas que o livre-mercado não pode resolver sozinho – mas suas alternativas para os governos tendem a ser implausíveis. Por exemplo, Milton Friedman clamou pela abolição do FDA [sigla em inglês para Departamento para Comida e Drogas]. Mas, nesse caso, como iriam os consumidores saber se sua comida ou remédios são seguros? Sua resposta era que confiassem no direito de responsabilidade civil. Corporações, ele dizia, teriam o incentivo de não envenenar a população por causa da ameaça de processos na justiça.

Então, você acredita que isso seria suficiente? E, claro, pessoas que denunciam o “governo grande” normalmente defendem uma reforma no direito de responsabilidade civil e atacam advogados.

Mais comumente, auto-proclamados libertários lidam com o problema de falhas no mercado tanto fingindo que elas não existem quanto imaginando o governo muito pior do que ele realmente é. Nós vivemos em uma novela da Ayn Rand, eles insistem. (Não, não vivemos). Nós temos mais de uma centena de programas sociais diferentes, eles nos dizem, que estão gastando uma vasta quantia em burocracia ao invés de ajudar os pobres. (Não, nós não estamos. E não, eles não estão).

Sou com frequência golpeado, incidentemente, pela maneira como os clichês antigoverno podem alardear a experiência do dia-a-dia. Fale sobre o papel do governo e você invariavelmente terá pessoas dizendo coisas do tipo: “Você quer que tudo seja administrado como a D.M.V.? [sigla em inglês para Departamento de Veículos Automotores]”. A experiência varia – mas meus encontros com a Comissão de Veículos Automotores de Nova Jersey tem sido razoavelmente boas (melhor que lidar com empresas de seguros ou de TV a cabo), e eu tenho certeza que muitos libertários iriam, se eles fossem honestos, admitir que seus próprios acordos com o D.M.V. não são tão ruins. Mas eles vão pela lenda, e não pelos fatos.

Libertários também tendem a “atacar em projeção”. Eles não querem acreditar que existem problemas que a solução requer ação governamental, então eles assumem que outras pessoas, de maneira similar, empenham-se com razões motivadas para servir a sua agenda política – que qualquer um que se preocupar com, digamos, questões ambientais está engajado em táticas de terror para favorecer uma agenda de “governo grande”. Paul Ryan, o presidente do Comitê de Orçamento do Senado, não só apenas acredita que estamos na trama de “A Revolta de Atlas”; Ele afirma que todo o falatório sobre mudanças climáticas é apenas “uma desculpa para fazer o governo crescer”.

Como eu disse no começo, você não deve acreditar na conversa sobre o crescimento de uma onda libertária; apesar do crescente libertarianismo social norte-americano, o poder real da direita ainda permanece na tradicional aliança entre plutocratas e os padres. Mas visões libertárias de uma economia desregulada tem sim um papel importante no debate político, então é importante que que compreendamos tais visões como miragens. Claro que algumas intervenções estatais são desnecessárias e não muito inteligentes. Mas a ideia de que temos um governo muito maior e muito mais intrusivo do que precisamos é uma fantasia tola.

1920 – 2020

“À semelhança da arte e da literatura, a ciência se conformou historicamente e (…) reflete o processo social a que deve sua própria existência. os cientistas herdam os preconceitos das sociedades nas quais vivem e trabalham”

Roberto Schwarz

O Hospício de Barbacena já foi tratado aqui nas páginas desse blog. Não por coincidência ele volta à tona na primeira postagem de 2014, com maior ímpeto. O choque após o contato com o ocorrido dentro daqueles muros é brutal. A leitura das histórias contadas por Daniela Arbex, em seu indescritível Holocausto Brasileiro, são como uma facada nas entranhas. É difícil compreender como uma mulher poderia ser trancafiada durante 40, 50 anos por exigir do pai o mesmo salário que ele pagava aos filhos. Nos causa estranhamento ver como médicos não titubeavam ao declarar pessoas tímidas como doentes mentais graves. E é quando essas questões começam a brotar que é necessário olhar com um pouco mais de afastamento.

Na segunda metade do século XIX, animados pelas descobertas científicas da época muitos cientistas tentaram buscar no comportamento humano uma correlação com o que se sistematizava em outras áreas, principalmente a Biologia. Nesse sentido seguiam os deterministas como Cesare Lombroso. Apesar da radicalidade do professor italiano na crença de que atributos genéticos determinariam comportamentos sociais, chegando inclusive a proclamar a figura do “criminoso nato” (indivíduo que seria, por imposição biológica, obrigatoriamente um criminoso), seu argumento se disseminou, chegando em fins do século aqui no Brasil.

Em solo brasileiro, o determinismo, apesar de relativamente tarde, conseguiu lugar de destaque, tanto no aparelho estatal do Estado Novo de Getúlio Vargas, quanto na sociedade recém saída do regime escravocrata. Muito mais que “ajudar a identificar e curar” os sujeitos (discurso adotado pelos médicos legalistas da época) a Medicina-Legal tornava a desigualdade uma questão biológica, hereditária. Como a política do corpo não poderia mais ser feita a fogo e brasa, como na época da escravidão e da monarquia, em seu lugar a “ciência” republicana provava que, biologicamente, alguns grupos seriam criminosos em potenciais. Trabalhadores urbanos, homossexuais e menores faziam parte desses grupos.

A ligação de comportamentos sociais como criminalidade à atributos hereditários não vingou (pelo menos institucionalmente) na época, e foi logo deixado de lado. Entretanto, na mentalidade escravocrata brasileira, as ideias deterministas deixaram um rastro visível até hoje. Como exemplo, temos os comentários feitos sobre a reportagem de um senhor de 84 anos preso várias vezes desde 1948 (leia aqui):

“Enquanto não aparece uma solução igual a do filme do Schwazeneger que tem implantada uma nova memória com nova personalidade, esses criminosos costumazes tem que cumprir toda a pena. Nada de progressão, são de personalidades doentias e repetiram (sic) os crimes sempre”

Enquanto na sociedade brasileira a mentalidade determinista encontra terreno fértil junto ao autoritarismo e ao preconceito, no campo da ciência alguns geneticistas tentam reivindicar o antigo dogma para si. Os GWAS, sigla em inglês para estudos de associação do genoma completo, tentam identificar pedaços de genes responsáveis por doenças complexas. As semelhanças entre o determinismo biológico e esses novos testes genéticos são claras. Assim como a Medicina Legal reclamava a falta de dados para poder chegar a conclusões, os geneticistas atuais também culpam a vastidão de variáveis para a dificuldade de verificação de suas hipóteses. Além disso, ambas as teorias deixam de levar em consideração fatores sociais na formação do ser humano, jogando na biologia e na genética toda a responsabilidade pelo futuro do indivíduo.

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Roberto Schwarz percebeu a ligação entre ciência e política

A relação entre o determinismo dos anos 20 e o geneticismo atual pode ser melhor compreendida se nos utilizarmos da frase de Pankaj Mehta: “O atrativo do determinismo biológico está no fato de que oferece explicações científicas para dar conta das contradições civilizatórias engendradas pelo capitalismo”. É esse o motivo da volta de uma ideia tão anacrônica como essa.

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Bibliografia:

Feios, sujos e malvados sob medida – Luis Ferla

O ressurgimento do determinismo biológico na era liberal – Pankaj Mehta (artigo on-line aqui)

Holocausto Brasileiro – Daniela Arbex

Doutrina de choque

Apesar contar com menos de 10 pessoas, o palácio no qual se encontrava Salvador Allende é bombardeado por caças e cercado por soldados. Para a doutrina de choque, a criação de um inimigo é muito importante.

Apesar de contar com menos de 10 pessoas o palácio La Moneda no qual se encontrava Salvador Allende é bombardeado por caças e cercado por soldados. Para a tática de choque, a criação de um inimigo é muito importante.

Naomi Klein, em seu livro Doutrina de Choque, trás uma interessante reflexão. Através das ações realizadas pela ditadura militar chilena implementada por Pinochet, a autora demonstra como o neo-liberalismo econômico de Milton Friedman teve necessariamente que contar com o apoio da restrição de liberdades individuais de uma ditadura. As liberalização econômica do Chile resultou em um grave processo de acumulação de riqueza, crise econômica e diminuição da autonomia financeira das camadas médias e baixas. Tais problemas suscitaram a revolta em todo o país, que só pode ser contida com o assassinato de aproximadamente 10 mil pessoas. Após o fim da ditadura os problemas criados por Pinochet ainda são ferida aberta no país. Em 2012 revoltas e manifestações contra a privatização do ensino conseguiram, por exemplo, reunir 100 mil pessoas em Santiago e a ocupação e manteneção pelos cidadãos de 26 escolas públicas que seriam fechadas pelo governo, além  da paralização de outras 55. Klein, entretanto, vai mais longe. Analizando essa contradição entre ‘liberdade’ econômica e repressão social, a autora percebe que, na verdade, as duas situações não se contradizem. Na verdade elas fazem parte de uma mesma tática: A tática do choque.

O tratamento com choques surgiu junto com a psiquiatria, tendo por interesse

Homens e mulheres juntos em Barbacena. Grande parte deles passaram seus últimos anos de vida nús

Homens e mulheres juntos em Barbacena. Grande parte deles passaram seus últimos anos de vida nús

maior o controle do corpo do paciente pelo psiquiatra. Através de medicação e tratamentos agressivos o psiquiatra procurava ‘sanar’ o disturbio apresentado pelo paciente. Entretanto, Foucault demonstra como o surgimento da psiquiatria tem como fim, muito mais a exclusão de alguém que é indesejado pela sociedade que a cura dessa pessoa. Dessa maneira, os hospícios demonstram sua caracteristica mais importante: a de funcionar como prisão. O terror praticado nesses lugares podem ser comparados aos praticados nos campos de concentração nazista. Em Barbacena (MG) mais de 60 mil pessoas morreram vítimas de maus tratos, fome, eletrochoques, diarréia e outras doenças, muitas dessas pessoas, contudo, não tinham sequer um quadro clínico, ou seja, muitas pessoas nem disturbios mentais tinham, e mesmo assim foram obrigadas a viver 40, 50 anos comendo pombos e fezes, tomando urina. A tática de choque visa criar confusão. O exemplo de Barbacena não poderia ser melhor. Mães analfabetas entregaram seus filhos tímidos à medicos letrados que os diagnostificam como ‘doentes mentais’ e os trancafiam para nunca mais abrir a cela.

O choque, como demonstra a autora, também pode ser econômico. No Chile, as sucessivas crises após a instauração do neo-liberalismo criaram um turbilhão que chacoalhou todo o país. O desemprego, o aumento dos preços e a falta de produtos tornaram a luta pela sobrevivência uma necessidade diária. Desestabilizado pela necessidade de sobreviver, o cidadão não poderia ‘perder tempo’ com assuntos como política. Confusa e apreensiva quanto à seu futuro, a população se via completamente excluída das decisões de seu país, mal conseguindo compreender como as coisas teriam tomado esse rumo. Esse cenário é bem parecido com o final dos anos 80 e início dos 90 no Brasil. A estagnação da economia e a hiper inflação trouxeram o caos ao país e deixaram a população confusa e alienada políticamente, o que pode ser verificado nas disputas eleitorais dos anos 90.

A confusão provocada pelos choques econômicos e sociais servem, então, para que a população atordoada não se de conta dos importantes processos políticos que ocorrem durante esses períodos. Os choque econômicos e sociais acontecem ao mesmo tempo que as grandes transformações de acumulação, e, nesse sentido, 2008 não foge à regra. Mas como foi escrito pelos que manifestavam a favor das escolas públicas no Chile: “Aunque nos peguen, nos quebren o intenten matar, lucharemos hasta vencer o morir” (Ainda que nos peguem, nos quebrem ou tentem nos matar, lutaremos até vencer ou morrer).

Em tempo: A rapper chilena Ana Tijoux faz rima sobre a doutrina de choque

Bibliografia:

Doutrina de Choque – Naomi Klein (versão em documentário aqui)

A Educação de Pinochet – Daniel Giovanaz (documentário que pode ser assistido aqui)

A História da Loucura – Michel Foucault

Microfísica do Poder – Michel Foucault

Holocausto Brasileiro – Daniela Arbex

‘Bobos’ franceses e terceirização no Brasil

Estavam três seguranças particulares a patrulhar o entorno de uma quadra, contando com pelo menos um veículo. A quadra pertence à Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), e naquela semana aconteciam jogos entre universidades. O que buscamos aqui, entretanto, é algo além da contradição entre o impedimento do acesso da Polícia Militar e a facilitação do acesso de uma milícia particular. O ponto chave aqui, pelo menos um deles, é justamente a normalidade com a qual a população trata o policiamento de um espaço público por uma polícia privada. Engana-se contudo quem acredita que esse movimento é apenas nacional.

A transformação globalizadora que teve como ponto crucial para seu desenvolvimento os anos 90 está agora a se consolidar socialmente, contando inclusive com uma reforma urbana própria, adiante da reestruturação econômica regional. Casos como os bohemians bourgeois (os “bobos“) franceses são a prova desse fenômeno. Uma elite jovem  ligada à produção tecnológica que provoca grandes transformações de elitização (fenômeno também conhecido como gentrificação), expulsando os moradores dos antigos bairros operários (que no cenário de desendustrialização não tem mais motivos de existir) para áreas cada vez mais periféricas. A recente crise imobiliária nos países europeus e nos EUA funcionou como catalizador dessa tendência, abrindo espaços  através da especulação imobiliária e com seus despejos. O caso de Barcelona é emblemático.

Levando em consideração que é exatamente o boom do processo tecnológico ocorrido nos anos 80/90 que leva a bolha da internet no início dos 2000, e que essa bolha tem como saída momentânea o afrouxamento da regulamentação bancária que leva à bolha de 2008, vemos que as bolhas estão intrínsicamente ligadas ao novo processo de acumulação. Esse novo processo de acumulação, que se radicalizou nos anos 90 está agora a consolidar a transformação das classes sociais, sendo essas, talvez, mais segregadas que no período anterior. O embate de forças, pelo menos por enquanto, aponta para uma consolidação dessa nova classe ligada à tecnologia. Em contrapartida, grande parte da população já está formando o que Ruy Braga chama de precarizado (trabalhadores do setor terciário com empregos de alta rotatividade, muitas vezes sem direitos trabalhistas, quando não tem eles negligenciados). O canal francês 5 Monde, denunciava essa semana, que na Alemanha, pessoas de 70 anos tinham que ter ‘subempregos’ recebendo 450 euros por mês para que conseguisse complementar a renda. Contraditóriamente, o mesmo programa mostrava como jovens ligados à tecnologia da informação ganhavam milhões de euros por ano.

No Brasil, um país de capitalismo periférico e de cultura escravagista, a segregação urbana sempre foi necessária para a manutenção das elites regionais. Mas os atuais movimentos de transformação urbana presentes na cidade de São Paulo mostram indícios daquela tendência global. Apesar da crise imobiliária não ter chegado aqui (pelo menos não em 2008 – desde 2011 muitos estudiosos já trataram da possibilidade dessa mesma crise em solo brasileiro) a expansão do mercado imobiliário tem expulsado mais agressivamente a população de baixa renda das áreas centrais de São Paulo.As atuações governamentais na Cracolândia e a lei federal 10.257 que autoriza as Operações Consorciadas em todas as cidades do Brasil são as ações estatais que dão combustível às transformações urbanas de elitização.

Sandro Mabel é o deputado responsável pela PL 4330, além de estar envolvido nas investigações contra Carlinhos Cachoeira e no chamado

Sandro Mabel é o deputado responsável pela PL 4330, além de ser réu nas investigações contra Carlinhos Cachoeira e no chamado “Golpe da Creche”

No mesmo sentido, corre na Câmara Federal o projeto de lei nº 4330 que permitiria a terceirização de todos os funcionários da empresa (atualmente, os funcionários ligados à atividade fim da empresa não podem ser tercerizados). Segundo estudo de 2011 realizado pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos) oito a cada dez acidentes de trabalho ocorrem com terceirizados. Também são apontados pelos dados que os terceirizados ganham 27% menos e trabalham até 3 horas a mais em sua jornada que os outros trabalhadores, além de serem demitidos até 2,6 anos mais cedo.

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Bibliografia:

Cidades Rebeldes – Vários autores

Occupy – Vários autores

O impasse da política urbana no Brasil – Ermínia Maricato

Segurança Privada – Viviane de Oliveira Cubas

Operação Urbana Consorciada – João Sette Witaker (disponível on-line aqui)

Novos arranjos midiáticos?

São Paulo, 7 de setembro de 2013

São Paulo, 7 de setembro de 2013. Foto por: Mídia Ninja

A ascensão da Mídia Ninja com a escalada das manifestações de Julho tomou de assalto a pauta da Mídia no Brasil, entretanto, com uma maior reflexão vemos que esse movimento não era totalmente inesperado. Através de transmissões ao vivo e sem censura (o que também significa sem edição, o que resulta em um extenso material bruto) pessoas inicialmente ligadas ao coletivo Fora do Eixo denunciavam à todos que quisessem (e pudessem) seguir pela internet os abusos policiais e governamentais que ocorriam durante as passeatas. Mostrando a realidade crua de uma maneira igualmente crua a Mídia Ninja abria um precedente extremamente perigoso à grande mídia e ao patronato: a possibilidade de criação de narrativas alternativas que fugissem ao seu domínio e escancarassem o coronelismo brasileiro.

Esse também um dos motivos da ascensão em importância dos blogs e outras ferramentas via web que contribuem para a democratização das pautas que merecem atenção. A definição dos temas tratados pela mídia brasileira estiveram sempre ligados ao interesse do patronato local, esteja ele dentro do governo ou fora dele. Atualmente a mídia é responsável, por exemplo, pela radicalização e polarização do debate político, mostrando incessantemente uma mistura de reportagens sobre corrupção, escândalos relacionados à moral e ética, e críticas à administração pública em geral (principalmente sobre impostos) e praticamente acobertando a importância dos serviços públicos, transformando tudo que vem do Estado como algo por si só inferior e corrupto.

Entretanto, as Jornadas de Julho jogaram um pouco de luz onde antes só havia sombra, e a cobertura da grande mídia foi contradita dia após dia. Um grande número de notícias foi desmentida através da rápida movimentação via internet. Do caso do fotógrafo do jornal francês agredido por um PM (e que a Globo dizia ter sido ferido por um manifestante) ao caso dos policiais infiltrados que criavam tumultos para justificar a repressão policial as grandes redes de comunicação tiveram sua própria face corrupta registrada.

E foi assim, meio acuada, que as grandes corporações midiáticas participaram do programa Roda Viva, entrevistando dois personagens centrais para a criação da Mídia Ninja. Focando excessivamente na questão do financiamento, os entrevistadores tentaram apontar ligações suspeitas entre o governo e integrantes do Fora do Eixo. A grande mídia sabia que o financiamento não é a questão mais importante da Mídia Ninja, mas era a única arma que tinha até o momento, e teimou por usa-la durante todo o programa. E mesmo quando surgiram denuncias dos mandos e desmandos de Pablo Capilé (personagem central no Fora do Eixo) os meios de comunicação tradicionais continuam a focar a questão monetária (para ver apenas um dos muitos exemplos surgidos ultimamente, clique aqui).

O que a grande mídia finge não saber, é que o fator revolucionário da Mídia Ninja não se encontra no financiamento que  possibilita com que as transmissões sejam feitas. Diferentemente da mídia tradicional, a transmissão online via celular não requer grandes investimentos em infra-estrutura e pessoal, muito menos requer altos custos de manutenção. O medo da Mídia Ninja é que ela é democrática: com um celular e um laptop qualquer pessoa pode transmitir o que acha que deve. A pauta é dada por cada um, individualmente e sem censura, e é exatamente isso que a grande mídia não quer. O que André Forastieri (texto que dei de exemplo acima) finge não entender é que, muito pelo contrário do que ele afirma em sua coluna, a Mídia Ninja é sim independente do Fora do Eixo, e isso apenas evidencia que o financiamento não é NADA importante, pois qualquer um, de forma independente pode fazer sua própria transmissão (clique aqui para aprender).

Apesar da verborragia de Capilé, a Mídia Ninja, assim como as Jornadas de Julho, parece apontar rumo a uma nova direção. Como dito por Mauro Iasi:

“Nas ruas o desejo transborda, gritando a impossibilidade de manter a impossibilidade do real, grafitando de vida as paredes cinza da ordem moribunda. Devemos apostar na rebelião do desejo. Aqueles que se apegarem às velhas formas serão enterrados com elas.”

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Bibliografia:
Mídia, rebeldia urbana e crise de representação – Venício A. de Lima, em Cidades Rebeldes – 2013

As Jornadas de Julho – Lincoln Secco, em Cidades Rebeldes – 2013

As vozes das ruas: as revoltas de junho e suas interpretações – Raquel Rolnik, em Cidades Rebeldes – 2013

Quando a cidade vai às ruas – Carlos Vainer, em Cidades Rebeldes – 2013

A rebelião, a cidade e a consciência – Mauro Luis Iasi, em Cidades Rebeldes – 2013