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Meia noite dentro da boca

Sei que nada será como está / Amanhã ou depois de amanhã / Resistindo na boca da noite um gosto de sol

Das conclusões das últimas postagens, nas quais traçamos ligações entre a introdução do modelo de produção toyotista, o Estado gerencialista, a mudança no horizonte de expectativa social-democrata, a introdução da ideia de políticas públicas, entre outros, devemos trazer elementos para compreender a longa madrugada brasileira, que se arrastaria como prenúncio da agonia social -implementada futuramente em escala mundial pelo neoliberalismo – vigente no Brasil a pelo menos 51 anos.

Como bem apontado por Paulo Arantes no capítulo 1964 de seu livro O novo tempo do mundo, talvez os gestores da Exceção que se inaugurou no Brasil com o golpe de 64, não tivessem ideia da mudança que começariam a operar na sociedade brasileira. Ou talvez tivessem, isso menos importa. A questão é que a exceção brasileira originária de 64 transmutou-se na chacina em plena luz do dia que é a chamada Terceira República, não sem o espanto de observadores internos ou externos. Noves fora, a Política de Desarmamento realizada pelos governos petistas é a contradição inerente à esse Estado gerencialista que a social-democracia mundial tanto afaga. A política pública de controle ao acesso da população à armas, tão propagandeada pelo governo como salvadora de vidas (160 mil segundo um relatório), se contradiz, e muito, com a política de incentivo à industria armamentista nacional, realizada pelo mesmo governo. Para verificação, em 2010 o Brasil era o 4º maior exportador de armas leves, e o 14º de armas pesadas. Não seria demais lembrar também que a fabricante IMBEL está produzindo um novo fuzil, com tecnologia totalmente desenvolvida no Brasil, chamado IA 2, que já conta com unidades nas Forças Armadas brasileiras e na Polícia Militar do Estado de São Paulo, ou seja, dentro de pouco também podemos espera-los pelas ruas brasileiras, na mão de traficantes e assaltantes de caixas eletrônicos – sempre lembrando que esse tipo de armamento corresponde a pouco mais de 15% das armas na mão do dito crime organizado. De qualquer maneira, a contradição do caráter focal das políticas públicas é evidente, num cobertor pequeno que é o do Estado Gerencialista, cobre-se a cabeça para deixar os pés no sereno. Pior ainda, a conciliação de classes neodesenvolvimentista adotada pelo PT, tentando ao mesmo tempo atender demandas populares como a diminuição da violência, acaba por atender interesses das grandes industrias. E isso não é pouca coisa. A injeção de dinheiro público na industria armamentista acabou obviamente por aumentar a capilaridade da bancada da bala, aumentando o poder de lobby das empresas no senado, na câmara, e inclusive, na sociedade. Não por coincidência Sandro Mabel, que já mereceu uma menção em texto anterior por ser autor do PL das terceirizações, é também da bancada da bala.

E é aqui que o parafuso dá mais uma volta, rememorando a iniciação da exceção brasileira chamada Ditadura Civil Militar. De tal maneira que o Direito Penal do Inimigo, comentado com precisão na coletânea O que resta da Ditadura, somado à esse grande embate entre os “de dentro” e os “de fora”, ou os incluídos e os excluídos, ou qualquer denominação que valha, acaba por criar um Estado Emergencial onde a carnificina é ampliada, em comparação ao período original de exceção, ceifando, por baixo, 60 mil vidas por ano.

As políticas públicas voltadas às grandes empresas armamentistas são também emblemáticas do lugar ocupado pelo Brasil no cenário externo em 2015. Se em governos anteriores o comprador óbvio de nossas armas era os Estados Unidos – e digo óbvio pois era o nosso maior “parceiro” comercial em todos os quesitos -, após os anos 2000 passamos a internacionalizar ainda mais nossas vendas. Assim como foram para a África e Ásia a Odebrecht, a JBS, a Gerdau, também foram nossas indústrias armamentistas, em especial a Taurus. Em 2011 foram grandes compradores de armas brasileiras: Estados Unidos, Colômbia, Tunísia, Israel, Paquistão, Filipinas, para citar os países com maiores problemas de violência. Tal política governamental de fomento à industria armamentista brasileira só reforça o papel sub-imperialista realizado pelo Brasil atualmente, que, em outro exemplo, ocupa militarmente o Haiti – em nome da ONU, claro – a 11 anos.