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Termo utilizado por Naomi Klein apontando para as relações entre liberalismo econômico e autoritarismo social.

O Choque Neoliberal

Alguma coisa já foi falada aqui no blog sobre o ataque neoliberal e sua doutrina de choque, a conjunção entre liberalização capitalista da economia e a necessidade do choque em variados níveis psico-sociais. Entretanto, gostaria agora de abordar novas questões não comentadas quando usei como referência Naomi Klein e a situação da psiquiatria como controle social no século XX brasileiro.

Uma questão central no recente livro de Paulo Arantes, O Novo Tempo do Mundo, é a derrocada do horizonte de expectativa, fator agregador importante para não cair na banalidade do dia a dia, como já teria dito alguém que me foge a memória agora. O horizonte de expectativa, a utopia, seja ela qual for, como já disse também Eduardo Galeano, nos faz permanecer caminhando em frente. Entretanto, por mais que pareça muito abstrato, a ideia de horizonte de expectativa tem implicações fundamentais. O companheiro comunista deve construir o comunismo diariamente, sempre mantendo no seu horizonte de expectativa o aperfeiçoamento total da igualdade e liberdade entre os seres humanos. Sendo assim, um dos principais conceitos comunistas seria a igualdade.

A expectativa de igualdade e liberdade, horizonte que perpassou grande parte do século XX, foi sendo gradativamente desmantelada pelas mãos do neoliberalismo. Como comentado por Daniel Zamora em parte de sua entrevista sobre Michel Foucault dada a revista Jacobin (que está sendo traduzida pelo blog), Foucault, em seus trabalhos tardios, teria sido seduzido pela ideologia aparentemente anti-estatal neoliberal, acreditando assim que a “liberdade” de mercado seria menos opressiva que a opressão do Estado capitalista por si só. Essa influência neoliberal o teria feito apoiar iniciativas como o imposto de renda negativo e outras medidas de gestão social através de políticas públicas voltadas a reduzir a pobreza, defendidas, inclusive, por Milton Friedman.

Nós, brasileiros, temos plena noção de como administrar essa gestão da pobreza através de políticas sociais, já que vivemos a 13 anos sob governos petistas. Como já afirmado por Paulo Arantes em fala feita na II Feira Antropofágica de Opinião, o PT fez uma gestão internacionalmente consagrada do rebaixamento do horizonte de expectativa que primeiramente teria sido visto com choque na Europa dos anos 80, tendo chegado ao Brasil em uma transição gradual e bem gerida de 13 anos. E isso porque, como apontado por Daniel Zamora, ocorre uma mudança significativa quando o horizonte de expectativa passa do fim da desigualdade para o fim da pobreza! Pior, essa mudança no horizonte de expectativa não apenas elimina o horizonte utópico que busca a igualdade e liberdade a todos, como também ajuda a desmobilizar as organizações de trabalhadores e outros movimentos.

O rebaixamento do horizonte de expectativa também teria implicações consideráveis se somássemos à todo esse quadro a interessante análise que Silvia Viana fez em seu livro Rituais de Sofrimento, que liga, creio eu que através do Narrador de Walter Benjamin, os Reality Shows atuais e as características do mundo do trabalho.

Torna-se imprescindível, portanto, um reavivamento do horizonte de expectativa positivo que o comunismo é capaz de trazer. Nesse sentido, num caminho apontado por Michel Lowy em seu livro Revolta e Melancolia, talvez seja possível realizar tal operação através do romantismo político. Ficaremos, então, com duas frases para remontar tal situação. A primeira do próprio Lowy “A Utopia, ou será romântica ou não será”. A segunda de um personagem não tão progressista, mas certamente um interessante interprete: Fagner. “Os meus olhos tem a fome do horizonte”.

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Bibliografia e referências:

Doutrina de Choque – Naomi Klein (documentário aqui)

O Novo Tempo do Mundo – Paulo Arantes

Can We Criticiza Foucault? – Daniel Zamora (tradução realizada por esse blog aqui) (texto original aqui)

Fala na II Feira Antropofágica de Opinião – Paulo Arantes (disponível aqui)

Fala na II Feira Antropofágica de Opinião – Silvia Viana (disponível aqui)

Revolta e Melancolia – Michel Lowy

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Doutrina de choque

Apesar contar com menos de 10 pessoas, o palácio no qual se encontrava Salvador Allende é bombardeado por caças e cercado por soldados. Para a doutrina de choque, a criação de um inimigo é muito importante.

Apesar de contar com menos de 10 pessoas o palácio La Moneda no qual se encontrava Salvador Allende é bombardeado por caças e cercado por soldados. Para a tática de choque, a criação de um inimigo é muito importante.

Naomi Klein, em seu livro Doutrina de Choque, trás uma interessante reflexão. Através das ações realizadas pela ditadura militar chilena implementada por Pinochet, a autora demonstra como o neo-liberalismo econômico de Milton Friedman teve necessariamente que contar com o apoio da restrição de liberdades individuais de uma ditadura. As liberalização econômica do Chile resultou em um grave processo de acumulação de riqueza, crise econômica e diminuição da autonomia financeira das camadas médias e baixas. Tais problemas suscitaram a revolta em todo o país, que só pode ser contida com o assassinato de aproximadamente 10 mil pessoas. Após o fim da ditadura os problemas criados por Pinochet ainda são ferida aberta no país. Em 2012 revoltas e manifestações contra a privatização do ensino conseguiram, por exemplo, reunir 100 mil pessoas em Santiago e a ocupação e manteneção pelos cidadãos de 26 escolas públicas que seriam fechadas pelo governo, além  da paralização de outras 55. Klein, entretanto, vai mais longe. Analizando essa contradição entre ‘liberdade’ econômica e repressão social, a autora percebe que, na verdade, as duas situações não se contradizem. Na verdade elas fazem parte de uma mesma tática: A tática do choque.

O tratamento com choques surgiu junto com a psiquiatria, tendo por interesse

Homens e mulheres juntos em Barbacena. Grande parte deles passaram seus últimos anos de vida nús

Homens e mulheres juntos em Barbacena. Grande parte deles passaram seus últimos anos de vida nús

maior o controle do corpo do paciente pelo psiquiatra. Através de medicação e tratamentos agressivos o psiquiatra procurava ‘sanar’ o disturbio apresentado pelo paciente. Entretanto, Foucault demonstra como o surgimento da psiquiatria tem como fim, muito mais a exclusão de alguém que é indesejado pela sociedade que a cura dessa pessoa. Dessa maneira, os hospícios demonstram sua caracteristica mais importante: a de funcionar como prisão. O terror praticado nesses lugares podem ser comparados aos praticados nos campos de concentração nazista. Em Barbacena (MG) mais de 60 mil pessoas morreram vítimas de maus tratos, fome, eletrochoques, diarréia e outras doenças, muitas dessas pessoas, contudo, não tinham sequer um quadro clínico, ou seja, muitas pessoas nem disturbios mentais tinham, e mesmo assim foram obrigadas a viver 40, 50 anos comendo pombos e fezes, tomando urina. A tática de choque visa criar confusão. O exemplo de Barbacena não poderia ser melhor. Mães analfabetas entregaram seus filhos tímidos à medicos letrados que os diagnostificam como ‘doentes mentais’ e os trancafiam para nunca mais abrir a cela.

O choque, como demonstra a autora, também pode ser econômico. No Chile, as sucessivas crises após a instauração do neo-liberalismo criaram um turbilhão que chacoalhou todo o país. O desemprego, o aumento dos preços e a falta de produtos tornaram a luta pela sobrevivência uma necessidade diária. Desestabilizado pela necessidade de sobreviver, o cidadão não poderia ‘perder tempo’ com assuntos como política. Confusa e apreensiva quanto à seu futuro, a população se via completamente excluída das decisões de seu país, mal conseguindo compreender como as coisas teriam tomado esse rumo. Esse cenário é bem parecido com o final dos anos 80 e início dos 90 no Brasil. A estagnação da economia e a hiper inflação trouxeram o caos ao país e deixaram a população confusa e alienada políticamente, o que pode ser verificado nas disputas eleitorais dos anos 90.

A confusão provocada pelos choques econômicos e sociais servem, então, para que a população atordoada não se de conta dos importantes processos políticos que ocorrem durante esses períodos. Os choque econômicos e sociais acontecem ao mesmo tempo que as grandes transformações de acumulação, e, nesse sentido, 2008 não foge à regra. Mas como foi escrito pelos que manifestavam a favor das escolas públicas no Chile: “Aunque nos peguen, nos quebren o intenten matar, lucharemos hasta vencer o morir” (Ainda que nos peguem, nos quebrem ou tentem nos matar, lutaremos até vencer ou morrer).

Em tempo: A rapper chilena Ana Tijoux faz rima sobre a doutrina de choque

Bibliografia:

Doutrina de Choque – Naomi Klein (versão em documentário aqui)

A Educação de Pinochet – Daniel Giovanaz (documentário que pode ser assistido aqui)

A História da Loucura – Michel Foucault

Microfísica do Poder – Michel Foucault

Holocausto Brasileiro – Daniela Arbex